sábado, 26 de setembro de 2020

asas

Tirem-me a roupa
o chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim

tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim
tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim
- poema do meu livro ©Poesia Provisória, publicado pela
Editora Radiadora
, Fortaleza, 2019
- musicado e interpretado por
Rubi
, São Paulo, 2020

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

eu vou ficar nessa cidade

E o menino seguia na madrugada para a estação
puxado pelo laço dos dedos da tiavó

na linha reta da rua
                            iluminada pela lanterna
                            de seu pedro
                            (uma mão no foco
                             outra na cabeça com as malas)

no silêncio longo da calçada
                                        rimado com o galo
                                        de seu antônio
                                        (um animal que latia
                                        outro que miava nos muros)

no embarque no primeiro vagão
                                              sentado à janela
                                              de seu olhar
                                              (uma paisagem que sumia
                                              outra que chegava)

fortaleza seria logo ali
                            depois da bica do ipu
                            passando o arco de sobral
                            chegando nas bananeiras de caucaia

fortaleza seria logo além
                            da saudade do quintal de ibiapaba
                            da lembrança da cancela da fazenda
                            da memória da casa de oitão

fortaleza seria logo aquém
                            do meu pai que esperava
                            de minha mãe que guardava
                            do irmão que me olhava

a cidade grande faria o menino ficar espichado.
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Um fragmento do meu próximo livro, Trem da memória – um poema, quando o menino vai de vez do sertão para a capital.
prefácio Valdi Ferreira Lima
coordenação editorial Alan Mendonça
Editora Radiadora
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Um frame, granulado pela memória, do meu filme O último dia de sol, 1999.
foto Deise Jefinny

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

poema vivo

O poeta, escritor e jornalista paulista Ademir Assunção é uma das maiores expressões da literatura brasileira contemporânea. Com 14 livros publicados, entre eles “A voz do ventríloquo, Prêmio Jabuti de 2013, é também parceiro em composições com Itamar Assumpção, Edvaldo Santana, Zeca Baleiro, e suas incursões literárias-musicais revelaram uma singular linguagem multimídia em apresentações com a banda Buena Onda Reggae Club nas noites paulistanas.
Em 2017 tive a honra de somar com ele a mesa de debate com o tema “Canção e Literatura: O Legado de Bob Dylan”, incluída na programação da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará, ainda dentro do clima do Nobel de Literatura concedido ao bardo de Minnesota.

Ademir Assunção, isolado entre livros e lives nesse período sombrio de pandemia no ar e pandemônio no país, produz necessárias leituras de poemas seus e de outros poetas. Já somam quase cem edições. É uma respiração que oxigena a esperança a cada noite.
Hoje tive a alegria de ver e ouvir o meu poema O morto, do livro Poesia provisória, publicado pela Editora Radiadora, em 2019.
Gratidão, caro Ademir. Sua leitura com os monges do Maitri Vihar Monastery entoando mantra, diz o poema, dá alma ao poema, continua o poema.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

consolo na praia - encontro e desencontro em agostos

O primeiro poema que li, ainda criança se alfabetizando, foi Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em O sentimento do mundo, de 1940. Desde então nunca mais larguei as mãos do poeta.

Quando publiquei meu primeiro livro, Roteiro dos pássaros, em 1981, coloquei versos de vários de seus poemas como epígrafes nos capítulos. Um ano depois, consegui o endereço de Drummond com o poeta amigo Marcio Catunda e enviei-lhe um exemplar.
Meses depois, em agosto de 1982, recebo um cartão-cartinha-cartografia afetiva, agradecendo-me o livro, elogiando meus poemas aprendizes, transcrevendo um verso que gostou, deixando-me em estado de pleno êxtase sereno. Outras trocas de correspondências, sempre sobre literatura, continuaram por um tempo. Da rua Conselheiro Lafaiete, em Copacabana, no Rio, para rua Barão de Aracati, na Praia de Iracema, em Fortaleza. E vice-versos em meu coração. Aquele que me inspirou e me guiou na poesia tornou-se meu missivista, e eu devotava-lhe todo o sentimento do mundo.
No começo de agosto de 1987 eu estava no Rio de Janeiro quando soube da morte de Maria Julieta, filha do poeta. Apegadíssimo a ela, a quem chamava de “meu melhor poema”, ao receber a notícia Drummond disse ao médico que o atendia: “Doutor, receite-me um infarto fulminante.”
Meu propósito de conhecê-lo pessoalmente, como estava se encaminhando naquela viagem, foi deixado de lado. O poeta em luto se recolhera, eu mais distante me guardei.
Na noite de 17 de agosto, colocando na mala uns exemplares de seus livros que levei para dedicatórias, ouço Cid Moreira anunciando a morte do poeta, vítima do que pediu ao médico na receita. Drummond foi ao encontro do "melhor poema" doze dias depois, aos 84 anos.
Restou-me, muito tempo passado, à falta de rima e solução, um encontro no banco do calçadão da praia, numa tarde também de agosto. Ficamos de mãos dadas. “O tempo é a minha matéria, o tempo presente", pareceu-me dizer, de costas para o mar, de frente para o mundo, vasto mundo.
Como ele escrevesse para mim num agosto em que nos encontramos em cartas, como eu pedisse a ele num agosto que não nos vimos em sua casa, ousei naquele dia uma colagem de versos de dois poemas, Consolo na praia e Poema da necessidade, que cabe neste agosto sombrio de 2020 em que sobrevivemos isolados em nossas casas.
Vamos, não chores.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.

Mas a vida não se perdeu.
Mas o coração continua.
É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

poesia com Mário


"A poesia nem tão provisória do meu amigo Nirton Venancio"

Mário Sanders, artista plástico

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

o morto

Shirlene Holanda diz com o coração o meu poema O morto, publicado no livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019.
Leitura tocante, necessária, oportuna.
Cada palavra dita como uma lágrima de cada verso estendido.
Sua voz e a Missa em Si Menor de Bach fizeram do poema uma prece, um réquiem para os 100 mil mortos.
Gratidão pela beleza da leitura, querida amiga. Apesar da dor.

sexta-feira, 31 de julho de 2020

galope

O corpo do homem
é um cavalo
onde
a alma põe a sela
e dispara no mundo
- o galope da existência
é um fato mágico
um mistério profundo
uma revolução eterna.

As esporas dos dias
atiçam o meu corpo
pelo sertão do mundo
e com as rédeas dos braços
cavalgo
pela trajetória contínua do sol
com a vida ferrada
nos olhos
e os segredos nos alforjes do peito.

Jogado no mundo
não há como se escapar:
todo passo
é decisivo
todo caminho
dá para o norte
todo corpo
é um gibão sobre a alma
toda a vida
é o lado externo da morte
todo peito
é um roçado
para toda safra
ser das rosas.

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Poema de meu primeiro livro ©Roteiro dos pássaros, 1981, Prêmio Filgueiras Lima de Poesia, Editora e Gráfica Lourenço Filho, Fortaleza, Ceará.
O escritor amigo Carlos Emílio Corrêa Lima, parceiro da geração do Grupo Siriará de Literatura, sempre “me cobra” uma nova edição do livro. À época a tiragem foi de 1000 exemplares, e hoje me surpreendo quando encontro um exemplar no site Estante Virtual a preço de raridade.
Outro dia, o poeta amigo de Brasília, Domingos Pereira Netto, lembrou que em 2021 o livro fará 40 anos de publicação, e merece uma edição comemorativa.
Juntando a “cobrança” de um com a lembrança de outro, no próximo ano será lançada, pela Editora Radiadora, uma edição com tiragem limitada, revisada e com mais um prefácio.
Na edição de 1981:
Projeto gráfico, capa: Rosemberg Cariry
Prefácio: F. S. Nascimento
Textos da contracapa: F. S. Nascimento e Artur Eduardo Benevides
Foto: Celso Oliveira Fotógrafo