Nirton Venancio

(Os poemas aqui publicados estão registrados na Biblioteca Nacional. Podem ser reproduzidos desde que mencionados a fonte e o autor)

Nome: Nirton Venancio
Local: Brasília, DF, Brazil

Sábado, Julho 12, 2008

multidão

foto David Martins

Chora quem conheço.
Choram aqueles longe de mim.
Chora até você que me fez ver:


A dor não é um privilégio meu.

(do livro “Raios”)

Terça-feira, Julho 08, 2008

carinho

foto Pascal Renoux

Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além dessa
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)


mas é vôo
tudo que o amor
nesse momento conduz ao sempre.


(do livro “Poesia provisória”)

Domingo, Junho 15, 2008

desalinho

foto Carlos Vilela

Quando se descuida a alma
sou o corpo
em procura.

As mãos se aquietam
com qualquer desculpa.
É preciso ficar atento.
Todo cuidado é corpo.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

Quinta-feira, Junho 12, 2008

namorada

foto Ashley Keynes

Hoje, como em todos os dias, eu faço um filme de amor para você. Eu escrevo um poema com as mais belas palavras que eu possa extrair do meu coração. Eu componho uma música com os melhores arranjos de flores.

Hoje, como em todos os dias, eu digo que lhe amo.

Terça-feira, Junho 03, 2008

exílio

foto Lukas Stevenson

Escrevo-te distante.
Não meu corpo tão longe do mar:
distante do oceano.

Vivo por enquanto a quilômetros de mim.
O que restou aos teus olhos
é o que mantém a lembrança
de um pouco que me definia.

Vago a olhar-me para trás
e de lá tento me alcançar de volta.

Não me perguntes o que houve.
Tão logo um lado e outro se reencontrem
passarei por tua casa.

(do livro “Poesia provisória”)

Quarta-feira, Maio 21, 2008

estima

foto Gyulis Santis

O homem é um bicho-homem
que não sabe se é um rato,

fosse o homem mesmo um rato
talvez não tivesse esse nome

posto que pode ser lobisomem
o homem não sabe o que é de fato.

Homem e rato – ambos têm fome
e comem tudo que está no mato,

quando comem, comem e somem
deixando sem fundo o chão e o prato;

mesmo não sendo um rato
o homem corre com medo da fome

como o rato corre do gato
que come o rato com medo da fome.

O homem (quem sabe...) é um passarinho
sem asas, sem bico e sem verão

que vive a vida atrás do ninho
angustiado no que chama solidão,

corre o mundo, sem parente, sem vizinho
montado no seu corpo feito alazão

carente de abraço, pão e vinho
perdido no céu, no mar e no sertão

sem saber se no incerto caminho
voa como pássaro ou avião.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

Quinta-feira, Abril 24, 2008

trem da memória (fragmento)

foto Mario De Biasi

Tudo foi tão de repente
diante dos meus olhos
que não houve tempo
para retornar ao corpo do menino
que brincava na calçada.

A memória viaja
- trem inútil -
e não traz as roupas
que se vestia nas tardes de domingo
e a estrada some
deixando o mundo
como um grande circo
na praça da estação.

(do livro “Trem da memória – um poema”)




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