quarta-feira, 17 de outubro de 2007

o morto

Gil Vicente, "Repouso", nanquim sobre papel

I
O morto
tomou destino ignorado:

em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?

Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).

O morto
tomou destino ignorado.

II
Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição

deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste.

III
O morto
(saibam)
não segue no cortejo:
segue um morto
(peso inútil)
que o limite do nosso olho vê.

IV
O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
- o morto
agora
é eterno.

V
Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
a lágrima que salta
em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.

VI
De nada mais sabemos
até que o morto nos mande notícias
e que seu vulto passe ao longe
como passam os viajantes
(depois)
do entardecer.

VII
Maior é o morto
na viagem
que ele continua


(em que planície nos céus?).


(do livro “Poesia provisória”)

Um comentário:

Anônimo disse...

Beleza, Nirton! Acho que dá pra ver quando alguém é, realmente, poeta, quando faz uma estrofe como esta sua, sobre o morto:


deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste.

A imagem é vigorosíssima!!!