sexta-feira, 18 de junho de 2010

o morto

 Gil Vicente, repouso, nanquim sobre papel
 
O morto
tomou destino ignorado:

em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?

Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).

O morto
tomou destino ignorado.

Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição

deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
             em
              riste. 

O morto
      (saibam)
não segue no cortejo:
      segue um morto
      (peso inútil)
      que o limite do nosso olho vê.

O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
-          o morto
                  agora
                            é eterno.

Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
                      a lágrima que salta
                      em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.
  
De nada mais sabemos
até que o morto nos mande notícias
e que seu vulto passe ao longe
como passam os viajantes
                               (depois)
                               do entardecer.

Maior é o morto
       na viagem
que ele continua
  
(em que planície nos céus?)

                                    (do livro "Poesia provisória")

10 comentários:

Mirze Souza disse...

Que lindo, Nirton!

Toda a verdade sobre um morto num brilhante poema.

Sim, o morto não segue no cortejo.

Em festa e satisfeito, já cumpriu sua missão.

Belo demais!

Beijos

Mirze

Nirton Venancio disse...

Mirze, esse poema escrevi já há algum tempo... postei hoje em homenagem ao Saramago.

Duarte Dias disse...

Belíssimo, Nirton!

Parabéns!

Nirton Venancio disse...

Valeu, Duarte!

Ricardo Augusto disse...

Conheço este poema de há muito, amigo Nirton! Acho que a primeira vez que você me mostrou foi na Biblioteca, numa daquelas tardes que passávamos lá, jogando conversa fora,junto com o F.S.Nascimento, e onde gravamos com o Lúcio Ricardo aquela nossa parceria!
Acho esse poema uma obra-prima.
Não só por ser excepcional do ponto de vista literário, como pela sensibilidade poética/metafísica do que representa a figura de um morto passando, indiferente a tudo, inclusive a sí próprio e a seu cortejo. Tudo existe apenas para os que observam.
O morto já não está presente...mudou-se para lugar ignorado!
Parabéns!

Nirton Venancio disse...

Amigo Ricardo, seus comentários trazem sempre algo particularmente comovente.
Lembro-me, sim, que lhe mostrei o poema no começo dos anos 80... naquelas tardes de bons encontros, boas conversas. O tempo bifurcou nossos destinos, meu caro, a gente que precisava se ver mais, nos encontramos menos...

Sandrio cândido. disse...

acho que jamais aprenderemos.
este é um dos poemas sobre a morte mais belos da blogosfera e da literatura refletir este que é a unica certeza humana e tambem o mair medo e aquilo que mais queremos mudar é um desafio cumprido a risca por ti...
parabens pelo espaço.
saudações.

Lobodomar disse...

Nirton, boa noite.

Acabei de ler sua bela entrevista, no 'bloco de notas'. Daí estar aqui, agora, apreciando sua poesia a tentando aprender um pouco.

Parabéns pela entrevista e por esse blog sensacional. Virei fã

Grande abraço, poeta!

Nirton Venancio disse...

Sandrio, grato pela visita, pela leitura. Um abraço.

Nirton Venancio disse...

Lobodomar, aprendemos todos juntos compartilhando emoções, meu caro. Forte abraço!