sábado, 29 de outubro de 2005

vertical

foto Christian Coiqny

O que existem são os meus olhos
numa dimensão
onde os meus sonhos não frustrem os meus pés.
Porque existem os meus pés
e a terra entranhada
e a canção seca dos homens.

Joguei-me do fundo de todo lugar distante
que deu nesta rua abismal.

Das raízes dos dedos dos pés
trago flores nas mãos
e segredo e cuidado.
Não tenho amor platônico pela vida:
nasço e morro exatamente hoje.
Sou marinheiro que parte:
cada dia é um porto que fica.

Ameaçam-me atear fogo
às vestes e às paixões
se eu não calo o canto
se eu não sigo as setas
se eu não cesso os beijos
isso
quando mais ardem
dentro e fora de mim
as vestes e as paixões.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

3 comentários:

Dioneide Costa disse...

Poesia linda!..Tão delicada e verdadeira!!
A foto me fez recordar "pasmem"..a ilha do açude de Orós( terra do nosso querido Fagner) que não visito há anos e nem sei se ainda existe aquela pequena ilha onde fui tantas e tantas vezes..as vezes tão ansiosa pra chegar na ilha...lá sempre tive uma grande sensação de " liberdade"....talvez por isso me lembrou agora e aqui, parece que a liberdade nessa poesia está " sofrida"....
Na poesia três elementos aí a serem destacados e sem comentários.. pra que? " sonhos,paixões,canção"
Grande abraço dessa apaixonada pela vida e pela liberdade..sempre!

Dioneide Costa disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Claudio Eugenio Luz disse...

Cada dia é um porto que fica. Guardarei essa passagem entre os meus, porque não é sempre que tenho o prazer de ler algo tão belo.

..hábraços