sábado, 26 de setembro de 2009

seguro que fue por su boca



Minha amada, minha doce cara metade, estou seguro que foi por sua boca. Encontrei sua roupa junto a minha, seu corpo junto ao meu. Seus dias juntos aos meus. Feliz aniversário!

No se si fue por los vino,
no se si fue por su boca
pero entre tanto tango encontré
su ropa, junto a mi ropa.


No se si fue por Castillo,
Pugliese, Troilo o Darienzo
pero su abrazo en mis manos
era un pincel y la pista un lienzo


Hay los vino, seguro que fueron los vino
(Yo no fuí)


Seguro que fueron…los vino.
No se si fue por los vino,
no se si fue por su aliento
pero entre tanda y tanda encontré
su ombligo, junto a mi cuerpo.


Y así volando en la gloria
Y aterrizando en la ruina
yo fui cayendo y cayendo
en la red de esas medias…asesinas


Hay los vino, seguro que fueron los vino
(Yo no fuí)
Seguro que fueron…los vino.


(Los Vino', composição de M. Di Genova, com Otros Aires)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

longe

 foto Larry Wiese
  
em algum lugar
o mar existe
para algum porto
ser avistado.
(do livro "A paisagem e a distância")

terça-feira, 1 de setembro de 2009

suspense

foto Jean-Sebastien Monzani 
  
Que viagem é essa
(que fazemos)
durante dias
noites
e  eclipses
dentro de um corpo
 (vagarosamente)
para frente
    (que não vemos)?
Existirão braços abertos
  ou abismos estendidos
no final de nossos olhos?
Haverá festa
 luzes
bandeiras
gente na estação?
Haverá (depois)
tranquilidade
planície
 sonho
 ou
solidão?
      (do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

aceno

foto David Santies

das entranhas
das terras
do solo materno
do chão do meu pai
me arrebentei numa cidade
com porta e janela
para o mar
onde meus olhos miravam outro continente
como uma lembrança...

(do livro “A paisagem e a distância”)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

navegante

foto Shepper Dann


Eu que sempre navego
ao sul do teu corpo
é no sal de tua pele
que conservo meus segredos
e espalho os meus beijos.


(do livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 13 de julho de 2009

matutino

foto N.Meilner

Os poetas dormem tarde.
A poesia é que acorda cedo.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 1 de julho de 2009

desdém

foto Paul Laswel

Pouco me importam suas ameaças.

Sei que um dia
com a noite vou me embora.
Não sei a que custo
com que fala
talvez de vício.

Por enquanto
durmo agarrado aos meus amores.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 16 de junho de 2009

reverso

foto Lukas Linberkley

Já que entre nós
todo o contrário é crível

não desfaça cerimônia:
volte o mais rápido impossível.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 4 de junho de 2009

abstrato

foto Rosalina Afonso

No tempo tudo cabe
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
O tempo dispensa a vontade alheia
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
O tempo – enorme! – eleva os deuses
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
De muito longe o tempo caminha
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 19 de maio de 2009

cinzel

foto Carlos Vilela

Viver:
esculpir
o
tempo.


(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 12 de maio de 2009

Cântico Negro



Amanheci com "Cântico Negro" na cabeça, um dos mais belos poemas de todos os tempos, escrito pelo português José Régio, em 1925.

Na década de 70, Walmor Chagas fez um espetáculo, "Os portugueses", onde interpreta vários poetas, de Camões à Antônio Botto, passando por Fernando Pessoa, Cesário Verde, Mário Sá-Carneiro, e entre outros igualmente importantes, José Régio. Foi a melhor interpretação de "Cântico Negro" que já vi-ouvi-vivi. Mas não encontrei registro dessa apresentação.

A interpretação de Maria Bethânia, de 1982, é também comovente, tão bela quanto o poema.

sábado, 2 de maio de 2009

parecer

foto Marília Campos

Pode ler
pode guardar
pode rasgar.

Tenho versos para todos os desgostos.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 26 de abril de 2009

desalinho


foto Carlos Vilela

Quando se descuida a alma
sou o corpo
em procura.

As mãos se aquietam
com qualquer desculpa.
É preciso ficar atento.
Todo cuidado é corpo.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quarta-feira, 15 de abril de 2009

rascunho



Kate, do blog Retrô, deu a idéia a Di, do blog A Fox Lady, de publicar uns manuscritos em suas páginas pra ver como são os garranchos de cada um. E eu seguindo as meninas.

Estão aí os meus reversos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

recorte

foto N. Bolm

Jogado no mundo
não há como se escapar:
todo passo
é decisivo,
todo caminho
dá para o norte,
todo corpo
é um gibão sobre a alma,
toda a vida
é o lado externo da morte,
todo peito
é um roçado
para toda safra
ser das rosas.

(um trecho de "Galope", do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

domingo, 29 de março de 2009

a página em branco


Escrevo, sem pensar, tudo o que meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi."
(Mário de Andrade)

É por isso, meus caros meia dúzia de leitores, que demoro muito a colocar os poemas nesta mal traçada página. Poema não é pipoca nem caldo de cana, que rapidinho se produz.

domingo, 15 de março de 2009

minh'avó


foto Henri Cartier-Bresson

Minh’avó caminhava pela grande casa.
Minh’avó muito pequena, até um dia desses,
caminhava pela grande casa.
Continuava com seus passos
seu cansaço
seus laços.


Minh’avó alterou a lei da física:
carregava no seu espinhaço tão frágil
décadas décadas décadas
datas datas datas
dias dias dias
carregava festas
aniversários
e algumas compras
carregava guerras
revoluções
e algumas brigas.

Teimosa, não se dava conta de toda essa carga
e olhava pela janela
o automóvel na rua
a moça na calçada
e ninguém mais em direção à igreja.


(do livro “Trem da memória”)

quinta-feira, 5 de março de 2009

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você estar longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

promessa

foto Mona Kuhn

Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.

Como a vida é curta.

(do livro “Raios”)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

vice-versa

foto Patrick Talbert

Sou
comprido
e sem solução:
entre
os dois pólos
caminho teimoso
do norte ao sul
dos pés à cabeça
passando pelo mistério do coração
sou astronauta
e uso gibão
cavalgo curioso
da via-láctea ao sertão
e vice-versos
na minha
solidão.

(do livro “Poesia provisória”)