sábado, 22 de agosto de 2026

o afeto

 


O afeto tem o cheiro da pele,

tem a largura do abraço,

tem a extensão do perdão,

tem a mensura da tolerância,

tem a profundidade da compreensão,

tem o tempo da espera.

 

O afeto guarda as fotos na gaveta,

guarda as lembranças das coisas no armário,

guarda a casa para a visita.

 

O afeto educa os filhos,

direciona os amantes,

conserva os amigos.

O afeto sinaliza a volta,

retoma o lugar perdido,

estabiliza o presente.

 

Ao contrário da dor, é o afeto que rima com amor.


- Do livro Poesia Provisória (Editora Radiadora, 2019)

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

no país da infância


Num verso do seu livro de poesia Trem da memória (Editora Radiadora, 2022), Nirton Venancio escreve que "o poema não acaba nunca".

O livro é constituído de um longo poema sobre a infância de Nirton, que também é cineasta. É um poema que ele diz estruturar como se fosse "um plano-sequência", refletindo sua experiência com a câmera.
O poema não acaba nunca por que a infância é uma pátria, um país que nunca abandonamos. É esse regresso reelaborado por meio da poesia que Nirton invoca com intensidade.
O território de sua infância é o Crateús, no Ceará, que ele um dia deixaria para ir viver na capital Fortaleza.
Ele retorna, então, já adulto, àquele tempo primordial dos pais, avós e bisavós, evocados nas velhas fotografias que o fazem embarcar no trem da memória.
"Quem me dera ter os braços /para resgatar nessa tarde /o menino /que se banhava de manhãs / nas águas do rio poty", anseia o adulto.
"O mundo era irreal e vistoso", rememora. Era um mundo em que "o trem saía antes do dia chegar"; um mundo de "tubo de kollynos amarelo"; um mundo de "vulcabrás"; do "boêmio Nelson"; da "mãe que cantava com Anísio Silva"; do mundo em que se ouvia no rádio "Armstrong pisar tão longe"; o mundo do "canário verde e amarelo três vezes campeão".
O trem segue seu curso. Os solavancos da memória revelam o tempo perdido. "Se não trago o menino de volta, / alcanço o homem e sua revolta".
O adulto busca se rever no tempo de menino, mas "a casa encolheu suas paredes / feito as rugas na pele dos avós".
A casa está agora inscrita no poeta senão como poesia, como palavra - e só por meio delas é possível recuperá-la, sublimar a saudade. "A casa / sempre foi um poema. / Cada dia, / um verso / cada filho, / poeta."
O trem avança. "Cada verso me arreda. / Cada palavra me envereda". Mas há o que a memória desbota, e então o poeta reconhece: "O que escrevo são incompletudes". O passado, uma galeria na parede, dói, incompleta. "Há sempre quem deslembro / e bate à minha porta".
A estrutura de versos livres, em tom confessional, é abandonada pelo poeta na parte final do livro. Nela, Nirton mergulha num fluxo de consciência, criando um jogo de associações livres em torno da memória de sua infância.
É outra forma de Nirton Venancio nos enredar nas cores de uma infância que, a despeito de suas singularidades, apresenta as emoções tão caras a todas as infâncias, representadas no seu livro belo e pungente.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

esconde-esconde


 
Você troca tudo de lugar
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.
Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.
Você troca os discos de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar.
Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.
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Do meu livro Poesia provisória (Editora Radiadora, 2019)
Musicado por Pachelly Jamacaru, Crato-CE

quarta-feira, 15 de julho de 2026

parceria


 

substantivos


Do livro Poesia provisória (Editora Radiadora, 2019)

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

arqueologia poética


As escavações de Argentina Castro e Leo Mackellene.
Roteiro dos pássaros (Editora Lourenço Filho, 1981).

terça-feira, 21 de abril de 2026

o tempo


 

migrante

                                                             Foto: Candangos, 1957, de Mário Fontenelle.


No começo da terra vermelha e cidade
meu pai passou por aqui
enquanto Juscelino passava em seu jeep.
Adubou concreto
elevou colunas
estendeu asas:
o sonho avesso de pau a pique.
De vastidão por imensidão
de cerrado por sertão
entorpecido de poeira e saudade
um dia subiu no pau de arara que voltava
sob o olhar franzido de Juscelino.
Preferiu
o abraço de minha mãe
o leite ralo das cabras
e a esperança de sol a pino.
- Poema do meu livro em preparação A paisagem e a distância - Escritos sobre Brasília.
A cidade completa hoje 66 anos. Cada operário em construção, tijolo com tijolo num desenho lógico, também faz aniversário.