segunda-feira, 15 de novembro de 2021

fragmento da memória



Do lado fronteiriço do pai
meu avô joão
com um canivete esculpia palitos para os dentes
com lascas do cercado trazidas do curral
onde o boi mugia no final da tarde
a tarde que intendia o alpendre
o alpendre que estendia meu olhar
o meu olhar que entendia meu avô
e os fiapos de madeira pelo chão
e as réstias da tarde pelo vão
e os palitos no colo do avô joão.
Entre o velho e o menino:
os palitos,
a tarde
e o coração.
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Fragmento do meu livro ©Trem da memória, um dos próximos lançamentos da Editora Radiadora.
Prefácio de Valdi Ferreira Lima
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desenho ilustrativo para esta postagem: ©Fausto Nilo

domingo, 10 de outubro de 2021

o olhar de Martine

 

foto Alan Mendonça

Nirton Venancio, a sua poesia provisória

Explorar as tardes, recomenda o poeta
mas o poema tem espírito de contradição
diz não ao ponto que enclausura
à maiúscula que atrofia
e sim ao que lhe convém,
silêncios e pontos quando pontes
o poema coa versos
tricota o tempo
eco enviesado do poeta transitório contraventor de setas
o poema se põe em pé
plumas entre veias e nervos
faz o ninho na retina
bica o corpo-semente
fura o crânio do poeta, barril de sonhos, pipas sem fios, desbussolados
o poema espera nas dobras da pele
do outro lado da rua
no lusco-fusco
ele é águas-claras na soleira da noite
o poema espia
desnuda
da sola dos passos ao crespo do cabelo
o poema faz o poeta
levanta veredas verticais
mastiga seu hálito.
É preciso reconstruir as nuvens
o poeta não cabe no tempo
de ruas, ofícios e calendários
ele anda entre as nuvens
e de cima
acalenta as rugas dos homens
olha o planeta pela luneta
e diz
vermelho-sangue
a poesia é urgente
ele sacode a poeira de galáxias
quer a mão quer o lábio
a virilha e o ombro
a solidão da gente
soltar o cheiro do silêncio
a carne do grito e a tarde que cai.
O poeta quer o futuro de seu coração sitiado
sabe que partir é se partir
partir é ficar no cais
mas o vento acaricia a pedra
a nuvem se move
e o poema passa levado pela correnteza
o poeta no seu encalço
ele fala de afeto e de volta, de temporais e amanheceres, de asas e de nó
leva seu coração entre as mãos
oferece
estranha eucaristia
um lençol de carne viva
seu corpo vaza outro
o infinito é aqui
o eterno é pra já
a pressa dos amantes estorva a marcha do tempo
os ponteiros caíram
na página em branco
inúteis.
- Martine Kunz
Em seu livro Cherrizinho, Armazem da Cultura, 2014, a escritora Martine Kunz, uma francesa-cearense desde 1979, faz um belíssimo relato sobre o olhar de seu coração no encontro com uma cidade, Fortaleza, que a esperava para acolhê-la de mares abertos, e o amor para sempre, o jornalista Claudio Pereira, que a aguardava para nele morar de braços abertos.
A narrativa é de uma beleza poética cativante. E tem a escrita de um roteiro cinematográfico digno de validação pelo mestre Jean-Claude Carrière, seu compatriota.
A certa altura do livro, na página 65, numa das tantas belezas de suas descrições, ela diz que "Não é a luz que torna visíveis as coisas, mas o olhar sobre elas." E aqui extraio esse todo verso no meio da prosa para agradecer o que ela escreveu na verticalização-mergulho de um poema sobre o meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019.
Meu coração abraça o seu, Martine: a luz de seu olhar permanente sobre minha poesia provisória.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

quinta-feira, 22 de julho de 2021

o mapa do coração

Nos demais – eu sei,
qualquer um o sabe –
o coração tem domicílio, no peito.
Comigo, a anatomia ficou louca. 
                                                 
Como diz o título do ótimo artigo de Larissa Drigo Agostinho, mestra e doutora em literatura, publicado na Folha de São Paulo em 16 de agosto de 2019, “Maiakovski cantava o amor como quem escrevia a revolução.”
O texto analisa, por ocasião do relançamento de Sobre isto, pela Editora 34, o livro-poema que Vladimir Maiakovski escreveu em estado de dilaceramento do coração, recluso em seu pequeno apartamento em Moscou, entre os angustiantes meses de dezembro de 1922 a fevereiro do ano seguinte. Ele se separara de Lília Brack, seu grande amor, depois de uma grave discussão, quando se viu ferido justo na garganta pela flecha preta do ciúme, como diz Caetano em sua caudalosa canção. Tudo sempre esbarra embriagado de seu lume.
“Sem você eu paro de existir”, escreveu o poeta em uma carta à amada concordando com o pacto de silêncio e distanciamento entre ambos. E partiu para o exílio entre quatro paredes. Político e lírico ao mesmo tempo, Maiakovski entregou-se a esse livro na mesma proporção que se entregava a uma causa do mundo. Se odiava a mesmice da vida burguesa, a inércia e a imobilidade, como aponta Larissa Drigo em seu artigo, o poeta canta e desencanta o amor porque esse é também doído e corroído pela miséria de todos os dias. Morto em 1930, desfazendo-se em ato extremo, aos 36 anos, Maiakovski considerava o livro sobre isto de graça e sortilégios do amor sua melhor obra. "Quero viver até o fim o que me cabe!", preconizou em verso-lápide no poema.
Sobre isto inspirou Caetano Veloso a compor O amor, fragmento adaptado, gravado pela interpretação magnífica de Gal Gosta no disco Fantasia, 1981. Nos versos mais cortantes Maiakovski pede que “Ressuscita-me, / nem que seja só porque te esperava / como um poeta, / repelindo o absurdo quotidiano!”, ao que o baiano arrematou com um risco de esperança, “Ressuscita-me ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro”.
Entre o mundo lá fora e o quarto cá dentro, entre as causas de dores externas e os causos de horrores internos, entre os amores e tantos outros precipícios, entre o cubofuturismo russo e o barroco recôncavo de Santo Amaro, os poetas auscultam os corações dos poetas.
O trecho no início da postagem é do poema Adultos, que Maiakovski escreveu antes, publicado em Antologia poética por volta de 1922. Mas o mapa do coração é o mesmo, sempre. O mesmo domicílio no mesmo peito. A anatomia ficou louca, como mostra abaixo a reprodução de um postal português de 1904, com relevo em almofada, postado por um amante a bordo do navio Congo, para que a amada além-mar pudesse apalpar a geografia da saudade ao recebê-lo.
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Texto, com adaptações para esta postagem, inserido num capítulo do meu livro ©Crônicas do Olhar, Editora Radiadora.

sábado, 17 de julho de 2021

a voz de Billie


Hoje, 62 anos de morte da grande cantora Bille Holiday, respostagem do texto incluído num capítulo do meu livro ©Crônicas do Olhar, a ser lançado pela Editora Radiadora.

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A VOZ DE BILLIE
“Southern trees bear strange fruit / Blood on the leaves and blood at the root / Black bodies swinging in the southern breeze / Strange fruit hanging from the poplar trees...”
- Versos iniciais da canção Strange fruit que a cantora Billie Holiday cristalizou numa interpretação lancinante, extraída vagarosamente de cada recanto onde o coração arfava cada palavra. A letra é um dos hinos mais doídos sobre o racismo nos Estados Unidos, considerada a primeira canção de protesto, mais explicitamente sobre o linchamento de negros.
Numa tradução livre, tentando aqui alcançar a essência da composição, Billie fala das árvores do sul que produzem uma fruta estranha, penduradas nos álamos, que derramam sangue em suas folhas e nas raízes. A referência é direta, o sentido mais do que alegórico: o grafismo nítido dos corpos de negros enforcados, balançando na brisa do sul.
De autoria do judeu branco Abel Meeropol, poeta e professor num colégio no Bronx, foi apresentada a Billie em 1939, no Cafe Society, um bar no porão de um prédio em Greenwich Village. A cantora ouviu e na mesma noite cantou. O impacto foi tão grande que por meses seguintes Billie ia ao local somente para interpretar Strange fruit.
Sua presença magnetizante no pequeno palco silenciava a plateia. Até os garçons paravam, evitando qualquer barulho, numa preparação de ambientação sacra. As luzes diminuíam, um único facho no rosto da cantora. Aquele pequeno universo subterrâneo tornava-se um útero onde pulsavam o lamento e a revolta contra a violência racial. Em um momento da letra, Billie Holiday torcia a boca, desenhando a expressão de rosto esganado numa árvore. Cantava e saía discretamente como entrava, e ia embora ouvindo os aplausos da calçada.
Em 2012 foi lançado o livro Strange fruit - a biografia de uma canção, de David Margolick, onde relata toda a história da emblemática composição.
Daquela data até os anos 2000, quase 100 versões foram gravadas de Strange fruit, de Carmen McRae a Nina Simone, de Diana Ross a Cocteau Twins, de Blue Spirit Blues a Sting, de Wynton Marsalis Quintet a Tori Amos, mas nenhuma tem os componentes de indignação e resistência tão genuínos como a anímica e elegíaca interpretação de Billie Holiday. Como disse William Duffy, coautor da biografia Lady Sings the Blues, 1959, “Billie não canta músicas; ela as transforma".
O que caracteriza o estilo de Billie Holiday é justamente o âmago da execução de cada nota em sua voz. A medula da alma na expressão melódica. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada faixa dos quase 50 discos gravados, em estúdio e ao vivo.
Quando Billie nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze. Ele abandonou a família, a mãe sumia nas noites, deixava a filha bebê com parentes. Negra, pobre, desamparada, a garota amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos. Isso na Nova York dos anos 20.
Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.
Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim para pior. Relações amorosas humilhantes, agredida em três casamentos, surtos de depressão por não poder engravidar, descontrole dos rendimentos em seus shows, enganada por sócios, ludibriada por empresários.
Internada no começo de 1959 com agravamento de cirrose hepática, insuficiência cardíaca e edema pulmonar, faleceu meses depois, no final da tarde de 17 de julho.
Tinha 44 anos, dez quilos a menos, e o olhar triste no teto do quarto.
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Foto ilustrativa para esta postagem: Dennis Stock, 1958.
©Steven Kasher Gallery

domingo, 11 de julho de 2021

poesia nos bastidores


O estender do mar é como o impossível:
o lado de cá
é
sempre
o infinito do lado de lá.

E entender de amar é como o impossível:
o meu lado de cá
é
sempre
o infinito do teu lado de lá.

Simetria, do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019.

Uma conversa hoje com o poeta Mauro Rocha, de Brasília, sobre os bastidores do meu fazer poético nas letras e no cinema.