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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

as barbas de perto


Foto Bruno Haddad

 Em 1988 eu estava no Rio de Janeiro montando (ainda não dizíamos “editando”) o meu primeiro curta-metragem 35mm, Um cotidiano perdido no tempo, na produtora L. C. Barreto, no bairro Botafogo.

No começo da noite de uma sexta-feira, depois de dois horários puxados, saímos eu e a montadora Virginia Flores, para tomar umas cervejas e um encontrar um amigo dela. “Vou te apresentar a uma pessoa maravilhosa”, disse-me, fazendo um pouco de mistério.
Caminhamos uns quarteirões e chegamos a um simpático bar com mesas na calçada. Botafogo é um dos polos importantes da vida cultural e cinematográfica carioca. De cara reconheci uns famosos. Virginia já de longe acenou para um deles, de cabelos compridos e longas barbas. Olhei e não acreditei: Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho! O Prancha, apelido carinhoso entre amigos de futebol amador, pela sua postura corporal esticada.
Mas o Nelsinho que apertei a mão naquela noite era o Nelsinho da militância política com a qual me identificava, da luta contra a ditadura. O Nelsinho jornalista e dramaturgo, como o pai. Eu só olhava para ele, impressionado com a vasta barba de profeta.
Ele perguntou sobre o filme que Virginia estava montando, que queria assistir quando estivesse em algum festival. Mas o que eu queria mesmo era conversar sobre a relação com o pai, marcada por fortes contrastes, tanto políticos quanto pessoais.
Nelsinho participou de movimentos estudantis nos anos 60 e 70, foi militante do MR-8 e preso por cerca de sete anos. Dizia em entrevistas que só não foi torturado porque os militares gostavam do pai. Mas não puxei esse assunto. Muita coisa sobre essa convivência eu soube ao ler O anjo pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, em 1992.
A nossa conversa ali foi sobre música, teatro e cinema, Glauber Rocha e Cinema Novo particularmente; um pouco sobre futebol e seu time Fluminense; e risadas sobre o bloco carnavalesco Barbas, que ele criou e virou um dos mais tradicionais da Zona Sul.
Já era tarde quando Virginia sugeriu irmos embora. No dia seguinte teríamos muito trabalho na moviola. Despedimo-nos. Nelsinho me abraçou demoradamente e senti as barbas mais de perto.
Quando saímos e olhei para trás para acenar um tchau, vi o nome do local: restaurante Barbas. Reduto cultural e político, era “o” bar do Nelsinho. Ali ele criou o bloco de carnaval. Aliás e muito mais: o restaurante, fundado em 1980, recebeu esse nome justamente por causa de seu ilustre frequentador.
Barbas, o restaurante, não existe mais. E Nelsinho e suas barbas partiram hoje, aos 79 anos, vitimado por sequelas de um AVC que sofreu em 2015.
Só estive com ele essa vez. Mas ter na memória o local onde o conheci e a conversa que tivemos, faz do encontro uma amizade não perdida no tempo.  

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

traços do arquiteto


Na manhã de 6 de dezembro de 2012, a antropóloga carioca Yvonne Maggie seguia em um táxi para o Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro. No rádio, o noticiário repercutia a morte de Oscar Niemeyer no dia anterior.

Entre muitos depoimentos de personalidades sobre a importância do arquiteto, Yvonne se emocionou com o relato de um repórter. Ele estava na fila de uma padaria e ouviu a conversa de uma menina, de sete ou oito anos, com a mãe. A garota disse que se sentia muito triste porque Oscar Niemeyer morreu. E arrematou: “Ele foi um grande escritor que escrevia casas e edifícios”. A mãe, curiosa, perguntou onde ela aprendeu aquilo. “Na escola”, afirmou.
Assim como Yvonne, imaginei que essa menina poderia ser aluna de um Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), criação de Darcy Ribeiro quando foi secretário de Educação no governo Brizola, e desenhado por Niemeyer. E lembrei do livro de memórias do arquiteto, As curvas do tempo, lançado em 1998.
Niemeyer começou os textos no final dos anos 70. Mas tinha dúvidas da qualidade literária. Foi seu grande amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade, historiador, que o incentivou: “Vai escrevendo, Oscar, vai escrevendo. Corrige depois”.
Publicado pela Editora Revan, o livro cativa pela simplicidade narrativa, como estivéssemos numa sala ouvindo o autor contar onde nasceu; sua infância no bairro Laranjeiras; as idiossincrasias dos parentes; a quantidade de escritores que leu; as farras com os amigos; o medo de viajar de avião; o despertar pela arquitetura e a relação afetiva com Le Corbusier; sua militância no partido comunista e amizade com Prestes; seu primeiro projeto individual, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha; os bastidores da construção de Brasília e as longas conversas com Juscelino; a resistência de não se entregar à velhice e o incômodo com a implacável certeza da morte.
O escritor italiano Alberto Moraria dizia que a literatura se engrandece quando se aproxima da linguagem oral, máxima que se aplica ao despojamento da autobiografia de Niemeyer. Sem ter necessariamente uma sequência cronológica nos capítulos, a imagem que faço são folhas de croquis literários espalhadas sobre uma enorme prancheta e o autor pegando uma para ler, depois outra para reler, abaixando-se para pegar uma que caiu com o vento que entrou pelo janelão de seu escritório em Copacabana, onde trabalhou até cinco dias antes de falecer, aos 104 anos.
Para a edição do livro, o autor criou desenhos, colocados no final das páginas, como rodapés na sala ilustrando trechos de uma casa.
Niemeyer, o arquiteto que teve seus traços lidos pela menina da fila da padaria.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

vida cabralina


Fotos: BBC News Brasil

Abro um dos cadernos onde anoto datas de chegadas e partidas de escritores, e vejo que hoje completam 105 anos de nascimento do poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto. Esse meu hábito cartorial afetivo faz-me sempre estar em contato com minhas referências e assim reverenciá-los.
Lembrei-me de um fato inusitado em sua vida.
Em 1952 João Cabral servia na embaixada em Londres. Nas pausas dos trabalhos burocráticos, lia poemas de Dylan Thomas, assistia a filmes de Alfred Hitchcock, não perdia os jogos do Chelsea, e colaborava com a revista do Partido Trabalhista inglês.
Foi para uma edição desse periódico que Cabral escreveu ao colega Paulo Cotrim Rodrigues Pereira, lotado em Hamburgo, Alemanha, pedindo-lhe um artigo sobre a economia brasileira. No trânsito entre as mesas, a carta passa pelas mãos de Mário Calábria, diplomata então secretário de Guimarães Rosa na embaixada.
Suspeitando de uma célula comunista no Itamarati e que o poeta pernambucano faria parte com outros diplomatas, entre eles o filólogo Antônio Houaiss, Calábria mandou cópias para Estado-Maior do Exército Brasileiro e para o jornalista Carlos Lacerda, notório opositor de Getúlio Vargas. Resoluto em atacar o governo via embaixadas, Lacerda divulga a carta em seu jornal, Tribuna da Imprensa, com a estrondosa manchete: "Traidores no Itamarati".
João Cabral, perplexo, foi afastado de suas funções, chamado ao Brasil para responder a um inquérito e colocado em disponibilidade sem vencimentos. Até 1954, quando foi reintegrado, por decisão do STF, o poeta, com mulher e três filhos, sobreviveu escrevendo editoriais e obituários para os jornais Última Hora, de Samuel Wainer, e A Vanguarda, de Joel Silveira.
De volta à diplomacia, João Cabral foi para Barcelona. Viveu sua carreira diplomática, de 1945 a 1990, por 14 países, como cônsul e embaixador. Sua paixão era, declaradamente, a Espanha, principalmente em Servilha, onde dizia se sentir em casa.
Gostava de assistir touradas, e comparou a lida na arena com o ofício da escrita. Em entrevista a José Castello, autor da biografia João Cabral de Melo Neto: O homem sem alma, disse: "O poeta é como o toureiro, precisa viver medindo forças com a morte, ou não vive".

sábado, 4 de janeiro de 2025

a última viagem


Foto: Acervo Collection Catherine et Jean Camus
Na manhã de 4 de janeiro de 1960 o escritor franco-argelino Albert Camus comprou passagem de trem de Villeblevin à Paris. Iria em companhia de seu amigo, o poeta René Char, a quem considerava o maior desde Rimbaud e Apollinaire. Seriam 105 quilômetros de boa conversa sobre literatura enquanto da janela admiravam a paisagem verde riscando de leve. Imagino a cena e sento-me no banco detrás, observando cada gesto, ouvindo cada palavra.
Mas Camus de última hora aceitou o convite do seu editor Michel Gallimard e entrou no sedã Facel Vega Excellence. Completavam a lotação a esposa e a filhinha de Michel e o cachorro. Já perto da cidade Sens, o carro repentinamente rodopia, descontrola-se em direção a uma árvore, bate em outra e se arrebenta. O escritor morre na hora, o editor dias depois, a mulher e a menina se salvam e o animal sai em disparada. Nunca o encontraram.
A primeira vez que li sobre as circunstâncias de sua morte, entrei em reflexões e perplexidades sobre as ironias, sortilégios e artimanhas do universo.
Ao lado do corpo de Camus, a maleta com os originais manuscritos do romance autobiográfico que estava escrevendo, uma espécie de testamento literário e político de suas origens na Argélia, O primeiro homem. Numa anotação visionária, registrou nas primeiras páginas que aquele livro não deveria ficar inacabado. Foi publicado por sua filha, Catherine Camus, em 1994. O escritor sempre comentava com os amigos que "nada é mais escandaloso do que a morte de uma criança, e nada mais absurdo do que morrer num acidente de automóvel".
No capítulo I desse livro postremo, há um trecho em que considerações sobre o sentido da vida, sobre o efêmero que somos e o eterno que pretendemos, se acentua como prólogo de uma dissertação filosófica que se desenvolve ao longo dessa busca proustiana. Jacques Cormery, o personagem quarentão alter ego de Camus, depois de visitar o túmulo do pai que não conheceu, vai à casa do amigo Victor Malan, alfandegário aposentado, a quem devota atenção.
- Quando se tem 65 anos, cada ano é uma prorrogação. Gostaria de morrer tranquilo, e morrer é assustador. Eu nada fiz. – Diz o amigo.
Jacques, com o olhar filial, contrapõe com apreço e reconhecimento.
- Há pessoas que justificam o mundo, que ajudam a viver só com sua presença.
Albert Camus teve um final absurdo e seu tempo não foi prorrogado, mas os intensos 46 anos vividos e sua obra justificam o mundo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

um ano mineiro



 No final de 1982 o poeta Cacaso esteve em Fortaleza para participar de eventos literários.

Acompanhado do poeta Adriano Espínola e do ator de teatro Ximenes Prado, segui para o Colonial Hotel, onde estava hospedado, levando de presente o meu primeiro livro de poemas, Roteiro dos pássaros.
Ao lado de sua namorada Rosa Emília, cantora e compositora baiana, Cacaso nos recebeu com um sorriso tímido, braços abertos e o coração ondulado de simpatia como as montanhas de suas Minas Gerais.
O que seria um encontro rápido, a conversa atravessou a tarde e encostou no começo da noite sob a brisa da Praia de Iracema.
Rosto juvenil nos seus 38 anos de idade, calça jeans, camiseta branca, chinelos de coro, cabelos longos e óculos de John Lennon, estávamos diante de um dos mais representativos nomes da chamada geração mimeógrafo, da poesia marginal, que agregava pensadores da escrita alternativa, como Chacal, Ana Cristina César, Geraldo Carneiro, Eudoro Augusto, Chico Alvim, Carlos Saldanha, e tantos outros que naquele terrível período da ditadura militar, da década de 70 aos vindouros esperançosos anos 80, articulavam movimentos artísticos em resistência e combate à repressão, mesclavam a alegria, a ironia e deboche criativos em suas obras.
Professor de Teoria Literária da PUC/RJ, Antônio Carlos de Brito, seu nome de batismo, era considerado o teórico daquele movimento de pensamento e desbunde, o que se revela tanto em livros de poesia quanto nos ensaios publicados em jornais e revistas.
Cacaso transitava com naturalidade no meio musical de um dos períodos mais inventivos e férteis da denominada MPB. Entre dezenas de parceiros que musicaram seus poemas, a mais constante foi a cantora e compositora Sueli Costa, que gravou em 1975 Dentro de mim mora um anjo, tema da novela Bravo, da Globo, e depois por Fafá de Belém, no disco Banho de cheiro, 1978.
No início de 1983 chegou ao meu endereço um exemplar do seu livro recém lançado. Na primeira página, uma carta escrita em papel fino por onde a luz atravessa e diminui as distâncias: “Meu caro Nirton, não esqueci da promessa que fiz de te enviar o meu ‘Mar de mineiro’...”, iniciava, com letra delicada e vertical. Lá pelo meio, entre relatos de viagens que estava fazendo, partilha afetuosamente: “Este ano quero ver se trabalho num livro de artigos e ensaios, coisas que publiquei na imprensa, revistas, e que agora quero reunir". Não deu tempo naquele ano nem nos seguintes. Um infarto no miocárdio o tirou de cena duas noites após o Natal de 1987.
Mar de mineiro, que se tornou seu último livro publicado, é de uma preciosidade de ver, pegar, ler e se encantar. As 224 páginas, em suave papel rústico que imita pergaminho, espraiam poemas em fontes itálicas, como manuscritos de um diário, entre ilustrações de pássaros, peixes, paisagens, e fotografias da infância e flagrantes de ruas. A beleza artesanal, com a pureza, coletividade e simplicidade de outros tempos, identifica a poesia, o poeta e a obra sem o padrão numérico de ISBN.
Cacaso tinha 43 anos quando partiu com o anjo que morava dentro dele.
Quando eu soube da notícia, lembrei-me de seu desejo manifestado na carta, que eu guardava no livro como um marcador especial. Naquele dia peguei o exemplar na estante e vi que, numa de minhas releituras, a folha ficou na página 37, onde tem o poema Máquina do tempo. Com saudade, li como um epitáfio:
"E com respeito àquele problema do
futuro acho que vou ficando por aqui..."

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

em Minas com o poeta



 

Em 23 de dezembro 2012 eu estava em Araxá, interior de Minas Gerais, quando li a notícia da morte do poeta alagoano Lêdo Ivo, aos 88 anos. Ousei um trocadilho infame desejando que fosse um ledo engano. E saí para andar e fotografar pelo verde da Estância do Barreiro, nas redondezas do Grande Hotel Termas.

Na caminhada silenciosa pela mata me deparei com as ruínas do Hotel Rádio. Na década de 1930 o prédio sofreu um incêndio. Consta que uma hóspede, em lua de mel, depois de encontrar o marido com a camareira, indignada e enfurecida, suicidou-se tocando fogo no quarto. Com a repercussão negativa, o hotel perdeu clientela e encerrou as atividades. O local voltou tempos depois como uma clínica de reabilitação e em 1960 definitivamente abandonado.
A vegetação tomou conta de todo o hotel. Raízes e troncos serpenteando nos corredores, alcançando as paredes, ocupando os quartos. Passei pela recepção, subi sob riscos para achar o local onde o fogo começara. O silêncio do tempo em volume reflexivo.
Desci e fiquei a admirar e fotografar a estranha beleza mumificada em verde que se renovava no orvalho de cada manhã.
Numa holografia da imaginação, vi os hóspedes que chegavam e saíam; o porteiro sorridente que dava passagem; o rapaz atencioso que carregava malas; o marido adúltero com o olhar oblíquo; a camareira enaltecida que disfarçava; a esposa traída riscando o fósforo.
Depois de fotografar alguns ângulos das ruínas, lembrei de um poema-prosa de Lêdo Ivo, A escada, publicado no livro Mar Oceano. Os versos analógicos tracejavam na minha cabeça como legenda para a foto digital. De volta ao quarto no Termas, procurei na Internet o poema. Cabia como epígrafe para minha visita ao fogo passional do passado, aos cômodos retorcidos do presente:
“Desde o início aboli a possibilidade de estar sendo conduzido para o Inferno ou o Paraíso, essas fictícias paragens finais que, não pertencendo à geografia terrestre, não se incluem entre os sítios prometidos aos meus passos futuros.”
Lêdo Ivo me acompanhou naquele dia. E não foi engano.

domingo, 22 de dezembro de 2024

Joe e a tempestade


No começo de 1969 o cantor e compositor Joe Cocker e sua The Grease Band viajaram da Inglaterra para os Estados Unidos para divulgar o primeiro disco lançado. Com a repercussão nos circuitos de pequenos festivais, de imediato o produtor Artie Kornfeld o convidou para o Woodstock Music & Art Fair, de 15 a 18 de agosto daquele ano, na região de uma distante e extensa fazenda de gado leiteiro, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Agendou a apresentação de Cocker para o último dia, um domingo como hoje, abrindo a programação, que fecharia com Jimi Hendrix, o maior cachê do evento, 18.000 dólares. O cantor inglês e sua banda receberam 1.375.
Joe Cocker começou seu repertório cantando faixas do disco e alguns covers de Bob Dylan, Pete Dello e Ray Charles. A plateia aplaudia sem muito entusiasmo, ainda ressacada do dia e noite anteriores, que teve Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Santana, Jefferson Airplane...
Sempre que leio sobre isso e o revejo no filme Woodstock, imagino que deve ter pensado: “É hora de mudar isso”, antes de falar sobre a próxima e última música do setlist de 13: With a little help from my friends, composta por John Lennon e Paul McCartney, do álbum dos Beatles de 1967, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, na voz de Ringo Star.
“Simplesmente alucinante, transformou totalmente em um hino do soul, fiquei eternamente grato a ele”, disse Paul ao ouvir a gravação no disco, que tem a guitarra e arranjo de Jimmy Page.
A apresentação naquela tarde no palco do Woodstock foi ainda mais alucinante. Durante oito minutos Joe Cocker magnetizou a multidão com sua voz gutural, seus movimentos espasmódicos, sua performance energética. A personalíssima versão da canção superou a de Richie Havens, que abriu o Festival dois dias antes, e vestindo uma longa bata alaranjada, cantou só com violão e sentado num banquinho.
Ao final Cocker agradeceu ao público extasiado e retirou-se. Não houve tempo de gritarem por sua volta. Uma grande tempestade começou nos contornos da fazenda. Em poucos minutos ventos fortes trouxeram muita chuva, inundando e encharcando de lama o chão de Woodstock. Os céus, como em reverência, estavam só aguardando Joe terminar. Ninguém se feriu, as enormes torres de iluminação oscilaram e resistiram, muitos curtiram, outros, compreensivelmente assustados, foram embora.
A partir daquele dia Joe Cocker não parou. Gravou quase 30 discos e fez shows pelo mundo todo. Esteve no Brasil em 1977, em 1991 no Rock in Rio, 2012 em Sâo Paulo, Rio, Belo Horizonte e Porto Alegre. Sempre magnetizante vê-lo ao vivo. Com sua postura tônica no palco e sua voz grave, era doce na mesma proporção quando, em entrevistas que assisti, falava das origens das canções, da infância de família operária, e como conseguiu superar os problemas com álcool e drogas nos anos 70.
Morava com a esposa em um rancho perto de montanhas no Colorado, Estados Unidos, quando faleceu aos 70 anos na manhã de 22 de dezembro de 2014. Não resistiu à tempestade de um câncer no pulmão.
Acima, fotograma do documentário Woodstock, de Michael Wadleigh, 1970. 

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

os sonhos de Nélida


“Somos mentirosos de nascença, Breta. E fadados a verdades que nós mesmos não compreendemos. Como se nossas verdades saíssem da sucata, do ferro velho. Somos assim, habitantes de um cemitério de navios, revestidos de melancolia e ferrugem. Os únicos que se salvam desta oxidação são os artistas. Talvez porque iluminem parcialmente os nossos túneis, sem temor de enfrentar detritos, monstros, e formas estranhas sem nome, que Eulália chama de alma”.
- Fala de Madruga em A república dos sonhos, romance de Nélida Piñon, lançado em 1984, Troféu Associação Paulista de Críticos Teatrais e Prêmio PEN Clube do Brasil. A autora passou praticamente três anos trancada numa pensão em Congonhas, Minas Gerais, para escrevê-lo.
De sua vasta bibliografia, entre romances, crônicas, contos, memórias, infanto-juvenil e ensaios, esse foi o que mais me impressionou, pela fina elaboração técnica narrativa nas suas quase 800 páginas. Nélida, filha de emigrantes da Galícia, parte de suas lembranças de infância para reconstituir a história fictícia de uma família de imigrantes que aportam no Rio de Janeiro na virada do século passado. O livro é uma metáfora do Brasil.
Considero uma obra tão memorialista quanto os biográficos Coração andarilho”, O livro das horas e Uma furtiva lágrima, pois encontramos Nélida nas vidas dos dezesseis personagens que se entremeiam, recriando assim sua realidade a partir do próprio discurso. Não à toa, Nélida é um anagrama do prenome de seu avô, Daniel Cuiñas. O parágrafo que destaquei acima é um dos pontos reflexivos entre autora, personagens e obra.
Primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (1996 a 1997), Nélida Piñon faleceu no final da tarde de 17 de dezembro de 2022, um sábado, aos 88 anos, no leito de hospital em Portugal. ao lado de sua assessora e companheira de vida por 25 anos, a psicóloga Karla Vasconcelos, que lhe segurava a mão. Poucas horas antes, recebeu a visita de Fernanda Montenegro e Fernanda Torres. "Agora já posso ir embora", disse-lhes.
Seu corpo foi trazido para o sepultamento no São João Batista, Rio de Janeiro. De volta à América do Sul, à república dos seus sonhos, onde começou a escrever a história do patriarca Madruga.
Artistas como Nélida Piñon nos salvam dessa oxidação de melancolia e ferrugem, da verdade que nós mesmos não compreendemos.

sábado, 23 de novembro de 2024

fuga e mergulho do poeta


Foto: Lüfti Özkök, 1961


A poesia do romeno Paul Celan é marcada pelo trauma do Holocausto. Judeu nascido em uma cidade que hoje pertence à Ucrânia, Tchernivtsi, seus pais foram deportados para um campo de concentração, onde morreram, e ele preso na Romênia em 1941, onde ficou até 1944, quando as tropas soviéticas desmontaram as imensas cadeias.

O poeta passou a carregar o que se chamava “culpa do sobrevivente”, a “condenação” por ter escapado, viver com as lembranças dos horrores e testemunhado a morte de milhares. Escrever era o exercício de sublimação da alma estilhaçada, em eterna solidão com os fantasmas, pois, como disse em um verso de Cinzas, “Ninguém / testemunha pelo / testemunho”.
Fuga da morte é o poema que mais o identifica com o pretérito atormentado. Escrito em alemão, como toda sua obra, foi publicado em seu primeiro livro, Papoula e memória, em 1948. Paul Celan tinha se mudado para Paris, onde concluiu os cursos de filologia e literatura, iniciados em Bucareste, tornou-se professor universitário, casou com uma artista gráfica, Gisèle Lestrange (1927-1991), e em 1955 teve um filho, Eric Celan, autor de um livro sobre a mãe.
Com longos versos sem pontuação, o poema é de uma grandeza comovente pelo enlevo de imagens translatícias, menções a personagens lendárias e analogias doloridas. São poucos os livros de Celan traduzidos no Brasil. Neste sábado vespertino de lembrança, destaco alguns trechos do citado poema, publicado na coletânea Cristal (Editora Iluminuras, 1999):
- “Leite preto da manhã nós te bebemos de madrugada”, referindo-se à fumaça dos crematórios;
- “quando escurece à Alemanha teus cabelos de ouro Margarida”, em alusão à jovem que na obra de Goethe seduz Fausto com joias materializadas pelo demônio;
- “nós cavamos uma cova nos ares lá não aperta”, sobre os mortos que dos fornos subiam aos céus e os jogados em covas coletivas.
O título do poema indica uma curiosa similaridade estrutural. As seis estrofes dispõem o ritmo de uma fuga, o estilo musical barroco. Um verso se anuncia como uma voz, que se remete mais à frente sobre outro verso e se encontram mais adiante com outros versos, formando vozes de um coro sobre o mesmo tema. As vozes de todos nos campos de concentração sob o mesmo destino.
Hoje, 104 anos de nascimento de Paul Celan.
Ele tinha 49 anos quando mergulhou para sempre nas águas do Rio Sena. Como apagando-se dos crematórios.

terça-feira, 19 de novembro de 2024

a imortalidade de Rosa

 Foto: Arquivo Público Mineiro / Acervo DIMUS – Museus Estaduais de MG

Em 1957 Guimarães Rosa se candidatou à Academia Brasileira de Letras, mas obteve apenas 10 votos. Tentou outra vez em 1963 e foi eleito por unanimidade, ocupando a vaga do gaúcho João Neves da Fontoura. Mas o escritor não tomou posse de imediato. Tinha uns medos, umas crenças, e achava que poderia se sentir mal de tanta emoção. Adiou por quatro anos.

Quando se considerou seguro, acertou com a Academia para assumir a cadeira no dia 16 de novembro de 1967. Tinha ido ao México no começo do ano representar o Brasil no I Congresso Latino-Americano de Escritores, publicou em agosto o livro de contos Tutaméia – Terceiras histórias, participou do júri do II Concurso Nacional de Romance Walmap, e por iniciativa dos seus editores alemães, franceses e italianos seria indicado ao prêmio Nobel... Estava entusiasmado! Fecharia o ano empossado na Academia.
Em seu discurso, fazendo uma referência à imortalidade que o fardão consagra, disse que "...a gente morre é para provar que viveu". Uma fala com acento aforístico que caberia numa conversa de Riobaldo com seu compadre Quelemém.
Três dias depois, na manhã de um domingo, Rosa sofre um infarto em sua casa, em Copacabana, e falece, aos 59 anos. Estava sozinho, sua esposa, dona Aracy de Carvalho, tinha ido à missa.
Como pedira aos familiares, foi enterrado com seus óculos de míope. O semblante final como
Um passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?,
perguntou e definiu Drummond em um trecho do poema a ele dedicado, Um chamado João, escrito três manhãs depois da partida do amigo e publicado no jornal Correio da Manhã.
Neste dia 19 bem cedo antes do café fui à estante e folheei o exemplar de Grandes Sertões: Veredas, que li pela primeira vez, com imensa perplexidade e encanto, na época da faculdade de Letras. As páginas quase todas sublinhadas e com observações laterais – hábito de dialogar com a obra e o autor que me fez sentir cumpliciado ao saber que Pedro Nava fazia o mesmo.
57 anos hoje que Rosa provou que viveu. Tenho dessas saudades de quem nunca vi e sempre amei na intimidade da leitura.

domingo, 17 de novembro de 2024

a liberdade é uma estátua


O título desta postagem é uma fala da peça Deserto, baseada nas memórias e em fragmentos de diferentes obras de Roberto Bolaños (1953-2003). Apresentada recentemente no Festival de Teatro Cena Contemporânea, em Brasília, o monólogo na interpretação visceral e comovente de Renato Livera, aborda os últimos anos de vida do escritor chileno, diagnosticado com uma doença hepática crônica.

A primeira imagem que me veio ao ouvir a fala na contextualização cênica, foi a sequência final do filme Planeta dos macacos (Planet of the apes), de Franklin J. Schaffer, 1968.


Clássico da ficção científica, conta a história de uma tripulação espacial que depois de muito tempo hibernada na nave, pousa em um planeta parecido com a Terra, dominado por uma civilização de macacos, já no adiantado e inimaginável ano 3900. O planeta é a própria Terra, sem vestígios de seres humanos, e numa curiosa inversão, tem os símios como seres inteligentes, poderosos e bélicos.
Charlton Heston interpreta o astronauta George Taylor, sobrevivente que enfrenta a raça dos macacos falantes em busca de respostas para aquilo tudo. Heston, que já tinha sido salvador da humanidade como Moisés em Os dez mandamentos, o lendário herói espanhol em El Cid, o judeu libertário em Ben Hur, não foi à toa que a Century Fox o escalou para mais um papel de Messias-reloaded.
Depois de muito embate com os macacos, Taylor em uma fuga que extasiava a plateia, em desesperado galope à beira-mar, dá de cara com a Estátua da Liberdade, afundada parcialmente na areia, a tocha apagada em suspiro final. Uma das imagens mais impactantes da história do cinema.
O personagem ajoelha-se e sucumbe à dor. A cena resume toda a certeza que a humanidade estava ali disseminada, coagulada na mais grave desesperança. Hollywood, como fábrica mágica de sonhos e pesadelos, elipsou o apocalipse em uma cena extremamente simbólica, não somente por sabermos da cidade de New York sumida do mapa, mas de toda a população da Terra literalmente enterrada com a estátua presenteada pela França.
Naquela noite ao sair do teatro, a realidade lá fora anunciava Donald Trump como 47º presidente eleito dos Estados Unidos.
Enquanto andava sob uns discretos pingos de chuva deste novembro brasiliense, um trecho da fala de um personagem do livro O gênio e a deusa (1955), do visionário Aldous Huxley, juntou-se às minhas reflexões, perplexidades e temores, no entrelaçado encontro da peça, do filme e da realidade: “O mal da ficção é que ela faz sentido demais. Em seu estado bruto, a existência é sempre um infernal emaranhado de coisas”.
Parece que assim caminha a humanidade naquela praia em direção à liberdade, que é uma estátua. 

 

terça-feira, 12 de novembro de 2024

a última quimera


Em 1912 Augusto dos Anjos lançou Eu, seu único livro, que reúne 58 poemas, todos em versos rimados e numa magnífica composição de decassílabos. Mas a publicação não agradou à crítica nem à classe conservadora. A literatura brasileira estava marcada pelas escolas simbolista e parnasiana.
O poeta paraibano usou a erudição como modelo formal, mas transgrediu no conteúdo, adotando uma linguagem com vocabulário científico para expor suas angústias existenciais. Sofrimento, pessimismo, tremores noturnos, podridão moral, morte, decomposição física, eram temas que não cabiam na elegância dos saraus de lirismo comedido.
Augusto dos Anjos passou por grandes dificuldades financeiras. Formado em Direito, nunca exerceu a profissão, sobrevivia lecionando Literatura no Liceu Paraibano, em 1910. Quando tentou transferência para o Rio de Janeiro, em busca de melhores condições, o governador João Lopes Machado negou o pedido. Augusto demitiu-se e foi embora com sua esposa, Ester Fialho.
Indignado, dizia que a injustiça social era solícita em premiar os ruins, dourar as falcatruas, entronar os endinheirados e avaríssima com os honestos e os sonhadores. Com a alma atormentada, sem emprego fixo, o poeta sacrificava-se dando aulas particulares. Tinha dois filhos, muitas dívidas e poucas esperanças.
Vislumbrou uma melhora de vida quando se mudou com a família para Leopoldina, em Minas Gerais. Por influência do cunhado, foi nomeado diretor de um grupo escolar. Mas cinco meses depois adoeceu, contraiu dupla pneumonia e faleceu em 12 de novembro de 1914.
Versos íntimos, seu poema mais conhecido, é no mesmo fôlego epígrafe e lápide de seus curtos e intensos 30 anos de vida com o coração cheio de pesares. Um soneto de insólita combinação paradoxal da finitude humana.
Nesta manhã, quando cedo me veio à lembrança sua história, fui à estante - esses passadiços horizontais em que se guardam dorsos verticais do tempo - e peguei o livro para folhear poemas em homenagem íntima, solitária, marejada. Imaginei como teria sido sua despedida.
Poucos devem ter assistido ao seu enterro no Cemitério Nossa Senhora do Carmo, em Leopoldina. "Somente a Ingratidão – esta pantera – / Foi tua companheira inseparável!”.
A vastidão dos prados mineiros foi sua última quimera.
Foto: autor desconhecido, 1912, Acervo Biblioteca Brasiliana Guita, São Paulo.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

sobre viver


Foto: Aleksandr Ródtchenko, 1924

Durante a escuridão da pandemia, revisitei várias obras literárias que me acolheram com a beleza dos reencontros e o prazer que a palavra provoca entre o real e o imaginário, entre o tempo e a pedra, entre o desencanto e a esperança.
E entre tantas releituras nos vagões daqueles dias, um dos maiores de todos os tempos: Vladimir Maiakovski. Voltei a sua casa em uma de suas obras-primas, Sobre isto, de 1923. Intenso como tudo que escreveu em tão pouco tempo.
Em 2019 a Editora 34 relançou no Brasil o belíssimo livro-poema em uma primorosa edição bilíngue, acrescida de notas e estudo crítico de Letícia Mei, tradutora, uma seleção de cartas, ilustrações e fotomontagens do artista gráfico e fotógrafo Aleksandr Ródtchenko, amigo do poeta.
Maiakovski escreveu o longo poema em estado de dilaceramento do coração, recluso em seu pequeno apartamento em Moscou, entre os angustiantes meses de dezembro de 1922 a fevereiro do ano seguinte. Ele se separara de Lilya Brik, seu grande amor, depois de uma grave discussão, quando se viu ferido justo na garganta pela flecha preta do ciúme, como diz Caetano Veloso em sua caudalosa canção. "Tudo sempre esbarra embriagado de seu lume".
“Sem você eu paro de existir”, escreveu o poeta em uma carta à amada, concordando com o pacto de silêncio e distanciamento entre ambos, para evitar o contágio da espuma das bocas desfeitas quando “dos olhos desfez a última chama”, que Vinicius versejou em seu soneto de 1938., quando um se rebate em dois e uma fenda no meio.
Maiakovski partiu para o exílio entre quatro paredes, onde fui visitá-lo em cada cômodo de página que relia, em cada corredor de versos que transpassava com meu coração ouvinte. Confortávamo-nos em nossas dores distintas. Ele me ouvia enquanto o lia; eu o escutava em seu silêncio pretérito.
Político e lírico ao mesmo tempo, Maiakovski entregou-se a esse livro na mesma proporção que se entregava a uma causa do mundo. Se odiava a mesmice da vida burguesa, a inércia e a imobilidade, o poeta canta e desencanta o amor porque esse é também doído e corroído pela miséria de todos os dias.
Morto em 1930, desfazendo-se em ato extremo, aos 36 anos, Maiakovski considerava o livro, um manifesto sobre graça e sortilégios do amor, sua melhor obra. "Quero viver até o fim o que me cabe!", preconizou em verso-lápide no poema.
Sobre isto inspirou Caetano Veloso a compor O amor, fragmento adaptado, gravado pela interpretação magnífica de Gal Gosta no disco Fantasia, 1981. Nos versos mais cortantes Maiakovski pede que “Ressuscita-me, / nem que seja só porque te esperava / como um poeta, / repelindo o absurdo quotidiano!”, ao que o compositor baiano arrematou com um risco de esperança: “Ressuscita-me ainda que mais não seja / porque sou poeta / e ansiava o futuro”.
Entre o mundo lá fora e o quarto cá dentro, entre as causas de dores externas e os causos de horrores internos, entre os amores e tantos outros precipícios, entre o cubofuturismo russo e o barroco recôncavo de Santo Amaro, os poetas auscultam os corações dos poetas.