segunda-feira, 17 de agosto de 2026

no país da infância


Num verso do seu livro de poesia Trem da memória (Editora Radiadora, 2022), Nirton Venancio escreve que "o poema não acaba nunca".

O livro é constituído de um longo poema sobre a infância de Nirton, que também é cineasta. É um poema que ele diz estruturar como se fosse "um plano-sequência", refletindo sua experiência com a câmera.
O poema não acaba nunca por que a infância é uma pátria, um país que nunca abandonamos. É esse regresso reelaborado por meio da poesia que Nirton invoca com intensidade.
O território de sua infância é o Crateús, no Ceará, que ele um dia deixaria para ir viver na capital Fortaleza.
Ele retorna, então, já adulto, àquele tempo primordial dos pais, avós e bisavós, evocados nas velhas fotografias que o fazem embarcar no trem da memória.
"Quem me dera ter os braços /para resgatar nessa tarde /o menino /que se banhava de manhãs / nas águas do rio poty", anseia o adulto.
"O mundo era irreal e vistoso", rememora. Era um mundo em que "o trem saía antes do dia chegar"; um mundo de "tubo de kollynos amarelo"; um mundo de "vulcabrás"; do "boêmio Nelson"; da "mãe que cantava com Anísio Silva"; do mundo em que se ouvia no rádio "Armstrong pisar tão longe"; o mundo do "canário verde e amarelo três vezes campeão".
O trem segue seu curso. Os solavancos da memória revelam o tempo perdido. "Se não trago o menino de volta, / alcanço o homem e sua revolta".
O adulto busca se rever no tempo de menino, mas "a casa encolheu suas paredes / feito as rugas na pele dos avós".
A casa está agora inscrita no poeta senão como poesia, como palavra - e só por meio delas é possível recuperá-la, sublimar a saudade. "A casa / sempre foi um poema. / Cada dia, / um verso / cada filho, / poeta."
O trem avança. "Cada verso me arreda. / Cada palavra me envereda". Mas há o que a memória desbota, e então o poeta reconhece: "O que escrevo são incompletudes". O passado, uma galeria na parede, dói, incompleta. "Há sempre quem deslembro / e bate à minha porta".
A estrutura de versos livres, em tom confessional, é abandonada pelo poeta na parte final do livro. Nela, Nirton mergulha num fluxo de consciência, criando um jogo de associações livres em torno da memória de sua infância.
É outra forma de Nirton Venancio nos enredar nas cores de uma infância que, a despeito de suas singularidades, apresenta as emoções tão caras a todas as infâncias, representadas no seu livro belo e pungente.

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