quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

as barbas de perto


Foto Bruno Haddad

 Em 1988 eu estava no Rio de Janeiro montando (ainda não dizíamos “editando”) o meu primeiro curta-metragem 35mm, Um cotidiano perdido no tempo, na produtora L. C. Barreto, no bairro Botafogo.

No começo da noite de uma sexta-feira, depois de dois horários puxados, saímos eu e a montadora Virginia Flores, para tomar umas cervejas e um encontrar um amigo dela. “Vou te apresentar a uma pessoa maravilhosa”, disse-me, fazendo um pouco de mistério.
Caminhamos uns quarteirões e chegamos a um simpático bar com mesas na calçada. Botafogo é um dos polos importantes da vida cultural e cinematográfica carioca. De cara reconheci uns famosos. Virginia já de longe acenou para um deles, de cabelos compridos e longas barbas. Olhei e não acreditei: Nelson Rodrigues Filho, o Nelsinho! O Prancha, apelido carinhoso entre amigos de futebol amador, pela sua postura corporal esticada.
Mas o Nelsinho que apertei a mão naquela noite era o Nelsinho da militância política com a qual me identificava, da luta contra a ditadura. O Nelsinho jornalista e dramaturgo, como o pai. Eu só olhava para ele, impressionado com a vasta barba de profeta.
Ele perguntou sobre o filme que Virginia estava montando, que queria assistir quando estivesse em algum festival. Mas o que eu queria mesmo era conversar sobre a relação com o pai, marcada por fortes contrastes, tanto políticos quanto pessoais.
Nelsinho participou de movimentos estudantis nos anos 60 e 70, foi militante do MR-8 e preso por cerca de sete anos. Dizia em entrevistas que só não foi torturado porque os militares gostavam do pai. Mas não puxei esse assunto. Muita coisa sobre essa convivência eu soube ao ler O anjo pornográfico, biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, em 1992.
A nossa conversa ali foi sobre música, teatro e cinema, Glauber Rocha e Cinema Novo particularmente; um pouco sobre futebol e seu time Fluminense; e risadas sobre o bloco carnavalesco Barbas, que ele criou e virou um dos mais tradicionais da Zona Sul.
Já era tarde quando Virginia sugeriu irmos embora. No dia seguinte teríamos muito trabalho na moviola. Despedimo-nos. Nelsinho me abraçou demoradamente e senti as barbas mais de perto.
Quando saímos e olhei para trás para acenar um tchau, vi o nome do local: restaurante Barbas. Reduto cultural e político, era “o” bar do Nelsinho. Ali ele criou o bloco de carnaval. Aliás e muito mais: o restaurante, fundado em 1980, recebeu esse nome justamente por causa de seu ilustre frequentador.
Barbas, o restaurante, não existe mais. E Nelsinho e suas barbas partiram hoje, aos 79 anos, vitimado por sequelas de um AVC que sofreu em 2015.
Só estive com ele essa vez. Mas ter na memória o local onde o conheci e a conversa que tivemos, faz do encontro uma amizade não perdida no tempo.  

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