terça-feira, 30 de dezembro de 2025

de poeta para poeta


Minha Poesia Provisória no afeto permanente da poeta Argentina Castro.
"Último dia 30 do ano, última terça do ano, acompanhada pela poesia de @nirton_venancio e da minha irmã @crisaquariana06 pós almoço fazendo um café com poesia. Respirando. Desacelerando"

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

aurora


 

capa de poesia


 

agora


 

dois livros


 

migrante


 Um dia cheguei aqui

de mãos dadas com um amor
que foi a minha terra tomar banho de mar
e me encontrar num dia branco.¹
O céu tão baixo na Esplanada
desenhava o rosto de Iracema na praia
e banhava-me marés de saudade.
Metade de minha vida
é sertão
outra parte do tempo
é cerrado.
Um lado do peito
é carnaúba
outra parte do colo
é buriti.
Um braço de serra
é Ibiapaba
outra mão que acena
é Asa Norte.

- Página do meu livro em preparação A distância e a paisagem – Escritos sobre Brasília.
¹ Menção à composição Dia branco, de Geraldo Azevedo e Renato Rocha, 1981.
Foto meramente ilustrativa: cena do filme Faroeste caboclo, de René Sampaio, 2013.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

traços do arquiteto


Na manhã de 6 de dezembro de 2012, a antropóloga carioca Yvonne Maggie seguia em um táxi para o Instituto de Arquitetos do Brasil, no Rio de Janeiro. No rádio, o noticiário repercutia a morte de Oscar Niemeyer no dia anterior.

Entre muitos depoimentos de personalidades sobre a importância do arquiteto, Yvonne se emocionou com o relato de um repórter. Ele estava na fila de uma padaria e ouviu a conversa de uma menina, de sete ou oito anos, com a mãe. A garota disse que se sentia muito triste porque Oscar Niemeyer morreu. E arrematou: “Ele foi um grande escritor que escrevia casas e edifícios”. A mãe, curiosa, perguntou onde ela aprendeu aquilo. “Na escola”, afirmou.
Assim como Yvonne, imaginei que essa menina poderia ser aluna de um Centro Integrado de Educação Pública (Ciep), criação de Darcy Ribeiro quando foi secretário de Educação no governo Brizola, e desenhado por Niemeyer. E lembrei do livro de memórias do arquiteto, As curvas do tempo, lançado em 1998.
Niemeyer começou os textos no final dos anos 70. Mas tinha dúvidas da qualidade literária. Foi seu grande amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade, historiador, que o incentivou: “Vai escrevendo, Oscar, vai escrevendo. Corrige depois”.
Publicado pela Editora Revan, o livro cativa pela simplicidade narrativa, como estivéssemos numa sala ouvindo o autor contar onde nasceu; sua infância no bairro Laranjeiras; as idiossincrasias dos parentes; a quantidade de escritores que leu; as farras com os amigos; o medo de viajar de avião; o despertar pela arquitetura e a relação afetiva com Le Corbusier; sua militância no partido comunista e amizade com Prestes; seu primeiro projeto individual, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha; os bastidores da construção de Brasília e as longas conversas com Juscelino; a resistência de não se entregar à velhice e o incômodo com a implacável certeza da morte.
O escritor italiano Alberto Moraria dizia que a literatura se engrandece quando se aproxima da linguagem oral, máxima que se aplica ao despojamento da autobiografia de Niemeyer. Sem ter necessariamente uma sequência cronológica nos capítulos, a imagem que faço são folhas de croquis literários espalhadas sobre uma enorme prancheta e o autor pegando uma para ler, depois outra para reler, abaixando-se para pegar uma que caiu com o vento que entrou pelo janelão de seu escritório em Copacabana, onde trabalhou até cinco dias antes de falecer, aos 104 anos.
Para a edição do livro, o autor criou desenhos, colocados no final das páginas, como rodapés na sala ilustrando trechos de uma casa.
Niemeyer, o arquiteto que teve seus traços lidos pela menina da fila da padaria.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

descobrindo Manoel


 Foto: Juan Esteves


para Manoel de Barros

Invento descobertas
no meio da escuridão.
Manoel diz que nos alimentamos
de escuros.
Quando tudo era nada.
Quando ainda somos nada.
Quando precisamos nos descobrir.
Manoel tem razão,
não:
Manoel tem coração,
sentado lá sob sua luz
em algum escuro do pantanal.
Manoel tem coração,
não:
Manoel tem razão,
inventando palavras
inventando descobertas.
Manoel de tão verdadeiro
é invenção minha
é descoberta minha.
- Do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019.
E Manoel descobriu meu poema um pouco antes de inventar de embora em 13 de novembro de 2014.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

bússola


  Do meu livro Poesia provisória, 2019, Editora Radiadora

sábado, 11 de outubro de 2025

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

poesia na rua


 

no meio da rua


“Um livro de poesia na gaveta / não adianta nada / lugar de poesia é na calçada”, começava Sérgio Sampaio sua belíssima composição Cada lugar na sua coisa, de 1976.

O poeta cearense Paulo Fraga-Queiroz ouviu o brado inquieto do compositor capixaba e botou nas ruas o bloco do genial projeto Poesia Em Cartaz: pegou 80 autores com respectivos versos curtos e estampou em 80 outdoors pelas ruas de Fortaleza!
E aí me lembrei de um verso de Paulo Leminski que disse por trás de seus óculos e bigode: "Belo seria se os anúncios luminosos não fossem comerciais". Fraga-Queiroz, que também é publicitário, satisfez o desejo do poeta curitibano.
Seu projeto reflete na paisagem urbana a desmercantilização da beleza e da arte. Poesia publicada na pele da cidade, a céu aberto, por suas esquinas e ruas, como registra a sinopse de sua ideia. Uma oportuna reflexão sobre o que é verdadeiramente belo, sobre o impacto da publicidade na sociedade através da poesia e na percepção da realidade na leitura de versos rápidos e tocantes.
Parabéns, Paulo, pelo seu imenso, urgente e necessário trabalho de divulgar poesia nas dimensões 9m x 3m de um outdoor.
Sinto-me honrado por estar na segunda temporada de 20 poetas.
E escolhi um verso que indicasse minha perplexidade e timidez sertaneja. 

quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Poesia em Cartaz


"É com grande alegria que damos início à segunda edição do projeto Poesia em Cartaz.
E para abrir essa jornada, temos mais 20 poetas, letristas, romancistas nesta edição.
Destacamos a poesia de Nirton Venancio.
Poeta reconhecido, Nirton foi premiado em vários concursos nacionais de poesia. Publicou os livros Roteiro dos pássaros (prêmio Filgueira Lima de Poesia), Cumplicidade poética, Poesia provisória e Trem da memória. Além disso, é um dos fundadores do Grupo Siriará de Literatura e editou a revista Comboio de Literatura, ambos em Fortaleza.
Cineasta festejado, seu curta-metragem Um cotidiano perdido no tempo recebeu o prêmio Margarida de Prata da CNBB, além de melhor filme e melhor fotografia na Jornada da Bahia. E O último dia de sol foi premiado nos festivais de Curitiba, Cine Ceará e no Maranhão recebeu o Troféu Jangada da Organização Católica Internacional de Cinema.
Senhoras e senhores, com vocês, Nirton Venancio, um mestre da palavra e da imagem.
Nirton, pra mim, você é um dos grandes responsáveis por incendiar a cena cearense de literatura. Que honra ter você com a gente neste projeto, amigo! Arre-égua, macho! Evoé!
Serão 20 outdoors, 20 poetas, 20 poemas pelas ruas de Fortaleza. Uma miscelânea de vozes para dar conta da poesia nos dias de hoje.
A segunda edição vai acontecer de 06 a 19 de outubro. Ou seja, todos os participantes, a seu tempo, terão o momento de ver seu trabalho na rua e repercutindo nas redes sociais".
- Paulo Fraga-Queiroz, poeta e publicitário

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

eu viajei de trem


 "Nirton, finalmente estou conseguindo tempo pra me dedicar a seu livro.

Que bonita essa edição. E que belo e emocionante poema, meu amigo. Todo o conjunto (projeto gráfico, capa e a escrita falam a mesma língua, andam na mesma direção) me leva a viagem que é a sua, por óbvio, mas que também é daquela criança que ainda nos habita e entre nuances e um verso ou outro nos acena. De longe, porém dentro da gente. Enquanto a vida acontece quadro a quadro, da janela, enquanto o trem vai seu caminho. Estou emocionado, amigo! E a viagem ainda não terminou!
Não é à toa que desde a faculdade sou seu fã!"
- Paulo Fraga-Queiroz, poeta e publicitário (Fortaleza-CE)
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Trem da memória, Editora Radiadora, 2022

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

o bruxo e a paisagem


Ilustração: Daniel Kondo

Numa das primeiras vezes que Hermeto Pascoal fez show em Brasília, ficou encantado com a cidade. Não exatamente com a arquitetura diferente, mas com o verde por todos os lados.

Quando o carro, vindo do aeroporto em direção ao hotel, entrou no Eixão Sul, uma das largas avenidas de seis faixas que formam o desenho da asa do avião, o músico esverdeou seu olhar albino.
Durante o percurso, entre silêncios e murmúrios melódicos improvisados, elogiava a paisagem na rodagem horizontal da janela.
Em um momento, disse, mais para si do que para quem estava ao seu lado: “Só faltam uns cabritinhos pastando nessa grama”.
Esse episódio sempre me comoveu. No livro de poemas que estou finalizando, A distância e a paisagem – Escritos sobre Brasília, menciono em um trecho:

“e os bodes pastando no verde do Eixão
que o bruxo Hermeto chegando imaginou”.

Ele partiu ontem aos 89 anos.
Ficam na história da música brasileira, em nossa memória afetiva e no molde da saudade, seus hermetismos pascoais que nos salvam e sempre nos salvarão dessas trevas, como bem definiu Caetano. 

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

Silvio Tendler

Fotos: Eduardo Knapp e Raphael Lucas


“Ficarei muito feliz em me ler na tua poesia”
O cineasta Silvio Tendler me enviou essa mensagem em 2022, quando lhe disse que é citado em um trecho do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora).
Meu caro amigo partiu hoje, aos 75 anos.
Uma manchete pulsando na província do meu coração.
Uma notícia que se derrama no presente de saudade.
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Da janela da casa
olhei debruçado
a história explodindo na rua Firmino Rosa:
os disparos no presidente em Dallas
os tanques de 64 vindo de Minas
dom Fragoso chegando da Paraíba
:
manchetes do mundo no beco da província
e o menino guardando tudo
para o poema no futuro do presente:
- um take de Oliver Stone
- um arquivo de Silvio Tendler
- um frame de De Sica. 

sábado, 16 de agosto de 2025

53 anos


  foi lá

onde o menino se fez adolescente
e viu o pai
- que doente sumiu numa tarde aleatória
- que contente reapareceu sem história
- que poente se foi e se fez memória
ele ali inerte deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste
ocupando o lugar da mesa de jantar
todos sem bússola no meio da sala:
minha mãe que chorava
a penca de filhos que soluçava
a vizinhança curiosa que acalmava.
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Trecho do meu livro Trem da memória, Editora Radiadora, 2022
A vida toda é saudade.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

o morto


 I

O morto
tomou destino ignorado:
em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?
Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).
O morto
tomou destino ignorado.
II
Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição
deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste.
III
O morto
(saibam)
não segue no cortejo:
segue um morto
(peso inútil)
que o limite do nosso olho vê.
IV
O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
- o morto
agora
é eterno.
V
Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
a lágrima que salta
em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.
VI
De nada mais sabemos
até que o morto nos mande notícias
e que seu vulto passe ao longe
como passam os viajantes
(depois)
do entardecer.
VII
Maior é o morto
na viagem
que ele continua
(em que planície nos céus?)
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Publicado no livro "Poesia provisória", Editora Radiadora, 2019

domingo, 29 de junho de 2025

alguma coisa



Do meu livro Poesia provisória (Editora Radiadora, 2019).
Aos amigos Aíla Sampaio e Elias N Sampaio.


 


quinta-feira, 19 de junho de 2025

domingo, 23 de março de 2025

voltando de trem


Trem da memória é um belíssimo e inspirador livro de poema escrito por quase 30 anos pelo poeta, cineasta e professor Nirton Venancio, lançado pela Editora Radiadora em 2022.
Nirton legou a todos os apreciadores de boas leituras um poema que atravessa gerações, tempos e entrecruza histórias. Li-o e ainda o leio, pois toda leitura que façamos dele sempre nos desperta uma outra mais.
Inspirador, os versos ali existentes me levaram a levantar questões sobre as idas e vindas do eu lírico (o próprio poeta em projeção) ao seu lugar de origem. Quem já migrou de sua cidade natal para outras plagas saberá entender o quão pode ser desafiador tal processo.
Dessas questões, nasceu a canção Minha volta, no estilo nordestino do xote, poema-letra de minha autoria com o parceiro Luciano Franco, que desenhou uma belíssima melodia, criou caprichados arranjos instrumentais e me instigou a ser o intérprete.
Portanto, inspirada no poema de Nirton (uma nova parceria), a canção foi gravada no meu disco Sonho é para sonhar, acessível nas plataformas musicais.
A belíssima capa é criação do poeta, cronista e artista plástico Euclides Themotheo Themotheo
- Chico Araujo
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Meu caro amigo Chico, bom saber que escrevemos poemas para atravessar os dias, palmilhar o chão do tempo, encontrar outros poetas nessa viagem. 

segunda-feira, 17 de março de 2025

a casa


 Trem da memória, Editora Radiadora, 2022

sábado, 15 de março de 2025

a poesia


Do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019.

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

domicílio em Canoa


O meu poema, a música de Charles Wellington , o traço de André Dias, que criou o clipe.

Selecionado para o mostra competitiva do 14° Festival Latino-Americano de Cinema de Canoa Quebrada, o Curta Canoa, será exibido na programação de hoje.
Todos domiciliados no mesmo espaço do afeto. 

sábado, 11 de janeiro de 2025

de poeta para poeta


Quando conheci Nirton Venancio, o abraço foi o de amigos de muito tempo, tamanha a emoção de nosso encontro frente a frente.
Quem nos pôs em rota de celebração mútua foi o fundamental Alan Mendonça, quando, pouco tempo antes, me possibilitou participar de vivências poéticas virtuais realizadas pela Editora Radiadora, pelos 2020 impossíveis de esquecer.
Foi também Alan quem me possibilitou o apaixonamento pela poesia "nada transitória", como costumo repetir, emergida por Nirton.
Nirton Venancio tem ares tímidos e uma doçura inigualável. A poesia dele é algo extraordinariamente envolvente. De tal maneira nos toma o espírito e as pulsações que não nos satisfazemos com uma leitura somente de seus versos.
Já disse a ele: Poesia provisória e Trem da memória estão sempre por perto, porque se tornaram importantes para mim, tal qual a poesia que também pulsa no poeta Alan Mendonça.
As duas páginas posta aqui são excertos do livro Trem da memória. Reparem na sutileza das imagens criadas, na inquietante e precisa seleção vocabular, no poético e emocionante tratamento que esse poeta dá às suas memórias.
Saboreiem os excertos e, depois, invistam na leitura plena de Trem da memória. O livro está disponível no site da Radiadora.

- Chico Araújo, poeta