quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você está longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 11 de fevereiro de 2007

linha

foto Ryan McVay

Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.

Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem segue em desalento.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

solo

foto Henri Cartier-Bresson

Agora
que chorei todas as dores
deste e de outros amores
que rimei nosso caso com circo de horrores
e fiquei olhando sobre o mar
um tempo que se foi...

Agora
que alguns amigos viajaram
e alguns outros que ficaram,
                                                  saíram...

agora
quando me deparo com o espelho no corredor
pergunto sem esperar resposta


quando continuo senão agora
                                            agora
                                                     que tenho
o saldo de algumas horas
                                           e restam
algumas roupas no armário
                                           e novos mapas
traço no vão da sala...

Quando senão
                          agora
                          agora
                          agora
que me resta o descompasso desse tango solitário
estrada a fora?



(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

promessa

foto Norma Kuhn

Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.

Como a vida é curta.

(do livro “Raios”)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

dimensional

foto David Fokos

A vida é larga
o mundo extenso

e minhas mãos indefesas
se entregam ao ofício de modelar
cada dia
afagar cada rosto
segurar o remo quando a tempestade
avançar
sobre
nossos cabelos.

Por enquanto
a vida é larga
o mundo extenso

e a minha estranha forma humana
(escondida sob as roupas e as máscaras)
caminha entre os instantes
em que o relógio
divide
a dor e alegria
na pulsação que espanta a fragilidade
do corpo
e do coração.

Sei que no percurso
a vida é larga
o mundo extenso

e o chão do país
arde quilômetros sob os meus passos
as estrelas
faíscam distantes sobre minha cabeça
e a gravidade
dos fatos
(e dos tatos)
me põe em pé
enquanto a terra flutua no espaço
(solenemente)
carregando seus animais.


](do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

luar

foto Kiriko Shirobayashi


Vislumbro uma luz sob a porta.
Ando.
Uma réstia toca a minha pele.

Esqueceram a lua acesa.


(do livro “Raios”)

domingo, 19 de novembro de 2006

transitivo

foto Bogdar Jarocki, 2005

A minha fala
só é
fala
quando
muda.
A minha fala
não é
fala
quando não move.
- aí
ela é muda.

A minha mudez
só é
mudez
quando
fala.
A minha mudez
não é
mudez
quando
não estala
-

ela cala.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

intimidade

foto Jerry Schaltzberg

O teu silêncio é íntimo.
O teu quarto,
a tua roupa pendurada no cabide,
o quadro na parede é íntimo.
Íntimo é o teu olhar,
as tuas lembranças,
a tua saudade,
as tuas cartas rasgadas
nunca mandadas são íntimas.

Uma canção gemida
nos teus lábios
é íntima como o beijo leve,
como o abraço profundo,
como o golpe na lâmina,
como o sangue jorrado.

Íntimo é o teu modo
de pentear os cabelos diante do espelho,
o cortar das unhas,
o escovar dos dentes.
O teu banheiro é íntimo,
mais íntimo é o teu sexo.

As tuas artimanhas
no ventre são íntimas.
O teu medo é íntimo,
o teu suor nas axilas,
o pulsar do teu coração,
o teu sono sobre o travesseiro.

Íntima é a escuridão
da tampa do ataúde
quando na tua carne morta.

Íntimo é o teu depois.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

sábado, 4 de novembro de 2006

regime

foto Jonnie Miles


Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.

De doce basta a vida.


(do livro “Raios”)

sábado, 28 de outubro de 2006

dados pessoais

foto Jean-Sebastien Monzani

Cinqüenta e muitos quilos
de idade e fome.
Vinte e tantos e espantosos anos
que a vida pesa em mim.

Do lado esquerdo
o coração incomoda
quando inquilino
quando solitário
e se eu pudesse arrancá-lo
não o faria.

Sou o encontro de duas vogais
entre o menino que se foi
e aquele senhor que se aproxima.
O presente
é esse grito na janela
esse silêncio no quarto
à guisa de forças
para carregar esses anos e esses quilos.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

mimetismo

foto Frank Grisdale

O que passa sobre nós
é cor do dia
feito um beijo no rosto
que marca
que muda o tom
que resguarda a esperança
do que antes foi desgosto.

A renovação das cores
é o que mantém todos os rostos na rua.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 1 de outubro de 2006

metade

foto Erland Pillegaard

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

prazo

foto Alberto Monteiro

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui>
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.

E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

anônimo

foto Nicholas Davies

Eu nunca deixo pistas dos meus pecados.
Escondo meus delitos
e deixo a condenação para a volta.
Estou muito apressado.

Eu nunca deixo atalho
para me descobrirem:
prefiro o próximo encontro
com o que encontrar próximo aos meus olhos.

Eu nunca deixo traços dos meus planos.
Deixo o resultado de tantos enganos
como pudesse ser também seu
aquilo que foi somente meu.

Não passo procuração para sentimentos
enquanto viajo para lugar desconhecido.

Este poema pode me custar a vida.
Pode me custar os amigos.
E me gostarem os inimigos.

Mas não deixarei rascunho dos meus reversos.

(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 5 de setembro de 2006

carinho

foto Jack Acrey

Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além dessa
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)

mas é vôo
tudo que o amor
neste momento conduz ao sempre.


(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

asas

foto Bruce Taj

Tirem-me a roupa
o chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim

tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim

tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim.



(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

lençol

foto Dominique Lefort


Cubro
o teu corpo nu
com
o meu corpo nu.


(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

esconde-esconde

foto Jean-Sébastien Monzani

Você troca tudo de lugar
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.

Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.

Você troca os cds de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar.

Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.

(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 12 de agosto de 2006

sobre viver

Gil Vicente, nanquim sobre papel, 2002

só escaparemos se conversarmos
se sentarmos
à mesma mesa
e trocarmos olhares
como amigos
ou sobreviventes.

(do livro “A paisagem e a distância – poemas sobre Brasília e outras viagens”)

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

aguardo

foto Lars Ihring

Quando você voltar
estarei com braços
abertos
o coração
exposto
os olhos
sorrindo.

Os meus beijos
secarão suas lágrimas
o meu corpo
aplacará sua febre
e nossas noites
iluminarão os dias.

O que é saudade
será sempre a festa de volta.


(do livro “Poesia provisória”)