quinta-feira, 29 de novembro de 2007

desmontando as tardes

foto Mario De Biase, Circo, 1955

Eu podia ver o circo da janela do terceiro andar. Ali defronte, no terreno por onde os cachorros circulavam. Nunca desci nas tardes de sábado e manhãs de domingo para assistir a uma das sessões anunciadas no serviço de som que arranhava os ouvidos. Não porque era um circo pequeno: o que eu gostava mesmo era ver o circo da janela do terceiro andar.

Um dia começaram a desmontar o circo. Foi quando me lembrei que dias antes anunciaram a última semana com atrações imperdíveis. Desmontavam o circo e desfaziam-se também minhas chances de assistir alguma apresentação se eu mudasse de idéia e descesse as escadas rumo à bilheteria. Da janela acompanhei por quase o dia todo o circo se resumindo a uns poucos caminhões velhos amontoados de tábuas, lonas, grades... e pessoas sonâmbulas sob o sol de segunda-feira.

Minhas tardes passaram a ser mais solitárias no retângulo da janela: não me importava o espetáculo, o que depois aconteceria à noite no picadeiro: o que me segurava os olhos era a vida ao redor da lona suspensa. Eram os artistas sem suas roupas de artistas, as pessoas comuns vivendo na temporalidade dos trailers, no improviso dos lares. Eram os animais tornados comuns na pouca extensão das jaulas. O melhor era aquele espetáculo, que me extasiava e incomodava, visto do meu camarote especial da janela do terceiro andar, tão longe e tão perto.

O circo foi embora e o melhor poderia ter sido mesmo partir: viajar sem ter um passado nos álbuns, ou um futuro agendado. Viajar tendo sempre só o presente que dura algumas semanas, poucas vezes uns meses, nunca muitos anos. Viajar na busca eterna do presente.
As estacas não criam raízes no chão da cidade.
(do livro Outras Prosas)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

postura

foto Josephine Sacabo

Cada gesto posto no espaço
me subtrai (um pouco) a intimidade.

Mas não há como negar
o tamanho do rosto
e esconder-se da luz diante do espelho.

Tenho (sem saída)
a vida presa aos pulsos
o corpo atracado ao tempo
levando-me neste soluço constante
nesta postura indecente
nesta vontade (sempre!)
de ser feliz.

A idade é pouca
sobre a carne que preciso ter
para descobrir o que esconde
o silêncio de amanhã
e me deixa com as mãos
curiosas
os sentimentos
acesos
o coração
(in) quieto.

Por isso
no estrondo dos dias nas ruas
na solidão das cercas na noite
mantenho o olho aberto
pastorando (e me resgatando a)
cada instante
em que a vida não cochila.


(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

prazo

foto Pablo Hernandez

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui >
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.

E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 27 de outubro de 2007

unidade

foto Rubens Venancio


Cada dia
tem sua porção de vida
tem sua imensidão de luz
tem sua solidão de gente
cada dia
cabe em si mesmo
como cabem na terra
a colheita e a semente.

Cada dia
tem seu ontem e amanhã
tem seu silêncio de espera
tem sua largura de saudade
cada dia
cabe em si mesmo
como cabem no continente
a distância e a cidade.

Cada dia
tem seu mar e os peixes
tem seus barcos e as viagens
tem seus remos e mãos fortes
cada dia
cabe em si mesmo
como cabem no porto
o rumo do sul e do norte



(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

o morto

Gil Vicente, "Repouso", nanquim sobre papel

I
O morto
tomou destino ignorado:

em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?

Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).

O morto
tomou destino ignorado.

II
Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição

deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste.

III
O morto
(saibam)
não segue no cortejo:
segue um morto
(peso inútil)
que o limite do nosso olho vê.

IV
O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
- o morto
agora
é eterno.

V
Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
a lágrima que salta
em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.

VI
De nada mais sabemos
até que o morto nos mande notícias
e que seu vulto passe ao longe
como passam os viajantes
(depois)
do entardecer.

VII
Maior é o morto
na viagem
que ele continua


(em que planície nos céus?).


(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

primeira infância


Rendo-me à poesia das crianças.
Perguntei à minha filha de quatro anos:

- o que você quer ser quando crescer?
- grande.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

impregnados

foto Eric Alan Pritchard

Ele fechou a porta e saiu. Precisava ir embora. Não era o que ele queria: era o que precisava. Não lhe era fácil ouvir o que ouviu e ter de ir embora. Fechou a porta e saiu. Agora as palavras ficaram atrás da porta, lá dentro do quarto. E dentro dele também continuariam. “Não vou tomar banho”, disse ela. Ele ouviu e não entendeu. Ela, com o rosto virado e apoiado nas duas mãos juntas, repetiu baixinho “não vou tomar banho”, como se agora fosse somente para si. Mas ele ouviu as palavras sussurradas no dorso das mãos, ali do outro lado, ela de costas para ele, ele que fixava o olhar no teto. Desprendeu-se, virou o rosto e olhou para ela. O cabelo cobria-lhe a nuca. O olhar dele tentou desembaraçá-los e atravessar até o outro lado, ver o seu rosto, ouvir de novo o que ela falara. “Nunca mais vou tomar banho, nunca mais”, continuou ela. Esboçou um gesto de afago em seus cabelos, não para que ela virasse o rosto, o que poderia ter sido ótimo, e esta história seria diferente, mas ele não fez da intenção um gesto sequer. Voltou o rosto para o teto. “Quero ficar com seu cheiro em meu corpo”, disse ela mais uma vez, alongando-se nas palavras, e foi no momento em que ele fechou os olhos para não ficar mais uma vez fixo naquele branco do teto, naquela lâmpada apagada, naquela luz do dia que começava. Fechou os olhos e as palavras dela entraram mais fortemente em seus ouvidos. “Para sempre... quero ficar com seu cheiro pra sempre”, era quase um murmúrio, mas ele ouviu nitidamente cada palavra, ali do outro lado, com o rosto nas mãos juntas, as mãos por cima do travesseiro fino. Ele não conseguia abrir os olhos. As palavras ressoavam em sua cabeça, se estendiam lentamente lá por dentro e sumiam quando novamente as palavras voltavam, “seu cheiro em mim... pra sempre”. Abriu os olhos, decidira, precisava ir embora: não queria: precisava. Levantou-se e o ruído da cama encobriu uma talvez repetida fala. Ele vestiu-se enquanto olhava para ela, ali deitada, confundida entre os panos, a brancura dos lençóis, a extensão da cama que parecia maior agora. Não podia ficar olhando-a, ou ficaria ali. Não queria ir embora: precisava. Virou-se e foi em direção à porta. Abriu lentamente, como se ela estivesse dormindo e não quisesse acordá-la. Fechou a porta e saiu. Precisava ir embora. Não era o que ele queria: era o que precisava. Não lhe era fácil ouvir o que ouviu e ter de embora. Fechou a porta e saiu. Agora as palavras ficaram atrás da porta, lá dentro do quarto. E dentro dele também continuariam.
(do livro "Outras prosas")

sábado, 15 de setembro de 2007

regime

foto Jonnie Miles

Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açucar no café.

De doce basta a vida.

(do livro "Raios")

domingo, 26 de agosto de 2007

esconde-esconde

foto Jean-Sebastien Monzani

Você troca tudo de lugar:
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.

Você troca o sol pelo luar:
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.

Você troca os cds de lugar:
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar.

Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 23 de julho de 2007

migrante

foto Lars Ihring

em que acreditar
além da cidade onde queremos morar
e em sua direção
afivelamos nossas malas
(com roupas e retratos)
enchemos nosso peito
(de esperança e saudade)
abrimos nossos olhos
(de horizonte e espanto)?

em que acreditar
nessa (qualquer) cidade
construída de concreto e traços
além da argamassa dos nossos sonhos?

mas se na cidade
cabe a pedra
cortada em mil pedaços sobre a solidão
caberá (muito mais)
a nossa vontade
solta em muitos corações e braços
povoando a paisagem e a distância.

(do livro "Brasília e outras viagens - a paisagem e a distância")

sábado, 7 de julho de 2007

per si

foto Javier López

Não quero teu verso enteado
na minha poesia.
Não se meta onde é chamado.
Faça de conta
que não escuta os meus apelos
e me deixe encontrar
esse endereço errado.

Quero meu desencanto legítimo
e esse beijo desfazendo a azia.

Não me venha com tradução simultânea
para música que me castiga.
Não me meta onde sou cantado.
Faça de conta
que não entende esse estrangeiro
e me deixe desencontrar
esse futuro passado.

Quero o ronco do meu íntimo
e este coração que a alma mastiga.

(do livro “Poesia provisória”)

quarta-feira, 27 de junho de 2007

ventania

foto Perry Dudikoff

O vento forte da vida
assanha os meus cabelos,
molda o rosto,
apaga os passos.

Mas

a minha existência
não se limita ao tamanho do corpo:
tenho todo um rosário de dias
e amores que estendem os braços
como se fossem mágicos
e olhos que atravessam o mar
como se fossem pássaros.


(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Luar

foto Kiriko Shirobayshi


Vislumbro uma luz sob a porta.
Ando.
Uma réstia toca a minha pele.

Esqueceram a lua acesa
.


(do livro “Raios”)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

longe

foto Cameron Davidson


Em algum lugar

o mar existe

para algum porto

ser avistado.


(do livro "A paisagem e a distância")

terça-feira, 12 de junho de 2007

namorada

foto Eric Boutilier

Cris, minha namorada, minha eterna namorada, hoje é dia para lembrar que todos os dias são seus.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

lembrança

foto Kiko Shirobayaski


Lembro-me que te olhava
e estavas nua
e não havia por perto
nem roupas
nem sombras
que te levassem de volta à sala.




Ficamos únicos
como uma lembrança
do mesmo quarto
dentro de nós.



(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 19 de maio de 2007

quimera

foto Hugo Dias


O anel que eu tinha nos dedos
era vidro e se quebrou.
O amor que eu queria na vida
era nunca e quase me acabou.


(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

sexta-feira, 11 de maio de 2007

profano

foto Marcus Claesson

Ameaçam-me atear fogo
às vestes e às paixões
se eu não calo o canto
se eu não sigo as setas
se eu não cesso os beijos

isso
quando mais ardem
fora e dentro de mim

as vestes e as paixões.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

quinta-feira, 10 de maio de 2007

sobre viver

nanquim sobre papel, de Gil Vicente


só escaparemos se conversarmos
se sentarmos
à mesma mesa
e trocarmos olhares
como amigos
ou como sobreviventes.

(do livro “A paisagem e a distância”)

quarta-feira, 2 de maio de 2007

o morto

Repouso, nanquim sobre papel, de Gil Vicente


I
O morto
tomou destino ignorado:

em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?

Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).

O morto
tomou destino ignorado.

II
Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição

deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
em
riste.


III
O morto
(saibam)
não segue no cortejo:
segue um morto
(peso inútil)
que o limite do nosso olho vê.

IV
O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
- o morto
agora
é eterno.

V
Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
a lágrima que salta
em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.

(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 26 de abril de 2007

armadura

foto Mário Cravo Neto


Meu corpo é a única coisa que tenho
que é nada
e como suicida
luto contra moinhos, tempestades e solidão
que é tudo.

Escondo-me nesta armadura de ossos, carne
e vestimentas
e espio a vastidão do mundo pelos buracos dos olhos
como quem espia lugares estranhos
infinitos
perigosos.

Meu corpo é a única coisa que tenho
para carregar o pretexto da alma.
É magro, feio e escandaloso
o corpo
mas é única coisa que tenho
para caminhar pelo tempo e pelos sertões.

Garantia não tenho
se o meu corpo é forte e frágil ao mesmo instante
se sujeito-me ao abismo
ao chão
à poeira
se estou marcado para me tornar saudade
lembrança
e fotografias
e me história não terá mais
um cavalo para montar
e serei uma estátua invisível no espaço.


Garantia não tenho de nada
nada
não levarei escondido no bolso
nenhuma semente
nenhum suspiro
nenhum gesto
pois tudo é podre
condenável
consumível.
Só é garantido o mais difícil:
a miragem na imensidão
o que se supõe ao longe
o completo mistério
para se chegar até lá
não se sabe com que corpo
não se sabe com que asas
não se sabe.



(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 21 de abril de 2007

harmonia

foto Max Paris


É preciso
um tom sobre o tom:
como o azul
sobre o pássaro
como o meu carinho
sobre o teu.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 16 de abril de 2007

parecer

foto Marília Campos

Pode ler
pode guardar
pode rasgar.

Tenho versos para todos os desgostos.

(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 7 de abril de 2007

verso

foto Larry Wiese

"O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre."

(do poema "Abstrato" no livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 2 de abril de 2007

reversos - um

foto Alberto Monteiro


"sou marinheiro que parte:
cada dia é um porto que fica."


(do poema "Vertical", no livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quinta-feira, 29 de março de 2007

carinho

foto Jack Acrey

Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além desta
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)

mas é vôo
tudo que o amor
neste momento conduz ao sempre.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 7 de março de 2007

cofre

foto Barry G. Olivier

Quando quiseres
venhas
e gires com as pontas dos dedos
o meu coração.

Encontrarás
teus segredos nos meus olhos abertos.

Guardo no peito
o íntimo
de quem se achega.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você está longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 11 de fevereiro de 2007

linha

foto Ryan McVay

Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.

Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem segue em desalento.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

solo

foto Henri Cartier-Bresson

Agora
que chorei todas as dores
deste e de outros amores
que rimei nosso caso com circo de horrores
e fiquei olhando sobre o mar
um tempo que se foi...

Agora
que alguns amigos viajaram
e alguns outros que ficaram,
                                                  saíram...

agora
quando me deparo com o espelho no corredor
pergunto sem esperar resposta


quando continuo senão agora
                                            agora
                                                     que tenho
o saldo de algumas horas
                                           e restam
algumas roupas no armário
                                           e novos mapas
traço no vão da sala...

Quando senão
                          agora
                          agora
                          agora
que me resta o descompasso desse tango solitário
estrada a fora?



(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

promessa

foto Norma Kuhn

Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.

Como a vida é curta.

(do livro “Raios”)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

dimensional

foto David Fokos

A vida é larga
o mundo extenso

e minhas mãos indefesas
se entregam ao ofício de modelar
cada dia
afagar cada rosto
segurar o remo quando a tempestade
avançar
sobre
nossos cabelos.

Por enquanto
a vida é larga
o mundo extenso

e a minha estranha forma humana
(escondida sob as roupas e as máscaras)
caminha entre os instantes
em que o relógio
divide
a dor e alegria
na pulsação que espanta a fragilidade
do corpo
e do coração.

Sei que no percurso
a vida é larga
o mundo extenso

e o chão do país
arde quilômetros sob os meus passos
as estrelas
faíscam distantes sobre minha cabeça
e a gravidade
dos fatos
(e dos tatos)
me põe em pé
enquanto a terra flutua no espaço
(solenemente)
carregando seus animais.


](do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

luar

foto Kiriko Shirobayashi


Vislumbro uma luz sob a porta.
Ando.
Uma réstia toca a minha pele.

Esqueceram a lua acesa.


(do livro “Raios”)

domingo, 19 de novembro de 2006

transitivo

foto Bogdar Jarocki, 2005

A minha fala
só é
fala
quando
muda.
A minha fala
não é
fala
quando não move.
- aí
ela é muda.

A minha mudez
só é
mudez
quando
fala.
A minha mudez
não é
mudez
quando
não estala
-
aí
ela cala.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

intimidade

foto Jerry Schaltzberg

O teu silêncio é íntimo.
O teu quarto,
a tua roupa pendurada no cabide,
o quadro na parede é íntimo.
Íntimo é o teu olhar,
as tuas lembranças,
a tua saudade,
as tuas cartas rasgadas
nunca mandadas são íntimas.

Uma canção gemida
nos teus lábios
é íntima como o beijo leve,
como o abraço profundo,
como o golpe na lâmina,
como o sangue jorrado.

Íntimo é o teu modo
de pentear os cabelos diante do espelho,
o cortar das unhas,
o escovar dos dentes.
O teu banheiro é íntimo,
mais íntimo é o teu sexo.

As tuas artimanhas
no ventre são íntimas.
O teu medo é íntimo,
o teu suor nas axilas,
o pulsar do teu coração,
o teu sono sobre o travesseiro.

Íntima é a escuridão
da tampa do ataúde
quando na tua carne morta.

Íntimo é o teu depois.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

sábado, 4 de novembro de 2006

regime

foto Jonnie Miles


Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.

De doce basta a vida.


(do livro “Raios”)

sábado, 28 de outubro de 2006

dados pessoais

foto Jean-Sebastien Monzani

Cinqüenta e muitos quilos
de idade e fome.
Vinte e tantos e espantosos anos
que a vida pesa em mim.

Do lado esquerdo
o coração incomoda
quando inquilino
quando solitário
e se eu pudesse arrancá-lo
não o faria.

Sou o encontro de duas vogais
entre o menino que se foi
e aquele senhor que se aproxima.
O presente
é esse grito na janela
esse silêncio no quarto
à guisa de forças
para carregar esses anos e esses quilos.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

mimetismo

foto Frank Grisdale

O que passa sobre nós
é cor do dia
feito um beijo no rosto
que marca
que muda o tom
que resguarda a esperança
do que antes foi desgosto.

A renovação das cores
é o que mantém todos os rostos na rua.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 1 de outubro de 2006

metade

foto Erland Pillegaard

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

prazo

foto Alberto Monteiro

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui>
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.

E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

anônimo

foto Nicholas Davies

Eu nunca deixo pistas dos meus pecados.
Escondo meus delitos
e deixo a condenação para a volta.
Estou muito apressado.

Eu nunca deixo atalho
para me descobrirem:
prefiro o próximo encontro
com o que encontrar próximo aos meus olhos.

Eu nunca deixo traços dos meus planos.
Deixo o resultado de tantos enganos
como pudesse ser também seu
aquilo que foi somente meu.

Não passo procuração para sentimentos
enquanto viajo para lugar desconhecido.

Este poema pode me custar a vida.
Pode me custar os amigos.
E me gostarem os inimigos.

Mas não deixarei rascunho dos meus reversos.

(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 5 de setembro de 2006

carinho

foto Jack Acrey

Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além dessa
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)

mas é vôo
tudo que o amor
neste momento conduz ao sempre.


(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

asas

foto Bruce Taj

Tirem-me a roupa
o chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim

tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim

tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim.



(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

lençol

foto Dominique Lefort


Cubro
o teu corpo nu
com
o meu corpo nu.


(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

esconde-esconde

foto Jean-Sébastien Monzani

Você troca tudo de lugar
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.

Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.

Você troca os cds de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar.

Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.

(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 12 de agosto de 2006

sobre viver

Gil Vicente, nanquim sobre papel, 2002

só escaparemos se conversarmos
se sentarmos
à mesma mesa
e trocarmos olhares
como amigos
ou sobreviventes.

(do livro “A paisagem e a distância – poemas sobre Brasília e outras viagens”)

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

aguardo

foto Lars Ihring

Quando você voltar
estarei com braços
abertos
o coração
exposto
os olhos
sorrindo.

Os meus beijos
secarão suas lágrimas
o meu corpo
aplacará sua febre
e nossas noites
iluminarão os dias.

O que é saudade
será sempre a festa de volta.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 23 de julho de 2006

impregnados

foto Eric Alan Pritchard

Ele fechou a porta e saiu. Precisava ir embora. Não era o que ele queria: era o que precisava. Não lhe era fácil ouvir o que ouviu e ter de ir embora. Fechou a porta e saiu. Agora as palavras ficaram atrás da porta, lá dentro do quarto. E dentro dele também continuariam. “Não vou tomar banho”, disse ela. Ele ouviu e não entendeu. Ela, com o rosto virado e apoiado nas duas mãos juntas, repetiu baixinho “não vou tomar banho”, como se agora fosse somente para si. Mas ele ouviu as palavras sussurradas no dorso das mãos, ali do outro lado, ela de costas para ele, ele que fixava o olhar no teto. Desprendeu-se, virou o rosto e olhou para ela. O cabelo cobria-lhe a nuca. O olhar dele tentou desembaraçá-los e atravessar até o outro lado, ver o seu rosto, ouvir de novo o que ela falara. “Nunca mais vou tomar banho, nunca mais”, continuou ela. Esboçou um gesto de afago em seus cabelos, não para que ela virasse o rosto, o que poderia ter sido ótimo, e esta história seria diferente, mas ele não fez da intenção um gesto sequer. Voltou o rosto para o teto. “Quero ficar com seu cheiro em meu corpo”, disse ela mais uma vez, alongando-se nas palavras, e foi no momento em que ele fechou os olhos para não ficar mais uma vez fixo naquele branco do teto, naquela lâmpada apagada, naquela luz do dia que começava. Fechou os olhos e as palavras dela entraram mais fortemente em seus ouvidos. “Para sempre... quero ficar com seu cheiro pra sempre”, era quase um murmúrio, mas ele ouviu nitidamente cada palavra, ali do outro lado, com o rosto nas mãos juntas, as mãos por cima do travesseiro fino. Ele não conseguia abrir os olhos. As palavras ressoavam em sua cabeça, se estendiam lentamente lá por dentro e sumiam quando novamente as palavras voltavam, “seu cheiro em mim... pra sempre”. Abriu os olhos, decidira: precisava ir embora: não queria: precisava. Levantou-se e o ruído da cama encobriu uma talvez repetida fala. Ele se vestiu enquanto olhava para ela, ali deitada, confundida entre os panos, a brancura dos lençóis, a extensão da cama que parecia maior agora. Não podia ficar olhando-a, ou ficaria ali. Não queria ir embora: precisava. Virou-se e foi em direção à porta. Abriu lentamente, como se ela estivesse dormindo e não quisesse acordá-la. Fechou a porta e saiu. Precisava ir embora. Não era o que ele queria: era o que precisava. Não lhe era fácil ouvir o que ouviu e ter de ir embora. Fechou a porta e saiu. Agora as palavras ficaram atrás da porta, lá dentro do quarto. E dentro dele também continuariam.

(do livro “Outras prosas”)

terça-feira, 11 de julho de 2006

persona grata

foto Farrokh Chothia

Gratifica-me ver teus olhos:
pássaros castanhos
que voam longe de mim.

Gratifica-me ver teu rosto:
moldura morena
que se guarda longe de mim.

Gratifica-me ouvir tua voz:
teclas de piano
que tocam longe de mim.

Gratifica-me teu jeito de andar:
ave-elegante
que passeia longe de mim.

Gratifica-me sentir tuas mãos:
gestos de plumas
se chegassem perto de mim.

(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 6 de julho de 2006

bagagem

foto Edward Dimsdele

Dentro de mim
cabe uma cidade
outra cidade
e mais uma cidade
dentro de mim
cabe o universo
e mais o vilarejo onde nasci

meus pés
arrastam lembranças
espalham o cheiro da terra
soltam o corpo no sorriso
todas as veias
do coração
bifurcam na próxima cidade
e levam ao mesmo rio
diante do sol
abrem o meu olhar
horizontando o dia
.

(do livro “Poesia provisória”)