quarta-feira, 22 de julho de 2009

navegante

foto Shepper Dann


Eu que sempre navego
ao sul do teu corpo
é no sal de tua pele
que conservo meus segredos
e espalho os meus beijos.


(do livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 13 de julho de 2009

matutino

foto N.Meilner

Os poetas dormem tarde.
A poesia é que acorda cedo.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 1 de julho de 2009

desdém

foto Paul Laswel

Pouco me importam suas ameaças.

Sei que um dia
com a noite vou me embora.
Não sei a que custo
com que fala
talvez de vício.

Por enquanto
durmo agarrado aos meus amores.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 16 de junho de 2009

reverso

foto Lukas Linberkley

Já que entre nós
todo o contrário é crível

não desfaça cerimônia:
volte o mais rápido impossível.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 4 de junho de 2009

abstrato

foto Rosalina Afonso

No tempo tudo cabe
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
O tempo dispensa a vontade alheia
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
O tempo – enorme! – eleva os deuses
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
De muito longe o tempo caminha
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 19 de maio de 2009

cinzel

foto Carlos Vilela

Viver:
esculpir
o
tempo.


(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 12 de maio de 2009

Cântico Negro



Amanheci com "Cântico Negro" na cabeça, um dos mais belos poemas de todos os tempos, escrito pelo português José Régio, em 1925.

Na década de 70, Walmor Chagas fez um espetáculo, "Os portugueses", onde interpreta vários poetas, de Camões à Antônio Botto, passando por Fernando Pessoa, Cesário Verde, Mário Sá-Carneiro, e entre outros igualmente importantes, José Régio. Foi a melhor interpretação de "Cântico Negro" que já vi-ouvi-vivi. Mas não encontrei registro dessa apresentação.

A interpretação de Maria Bethânia, de 1982, é também comovente, tão bela quanto o poema.

sábado, 2 de maio de 2009

parecer

foto Marília Campos

Pode ler
pode guardar
pode rasgar.

Tenho versos para todos os desgostos.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 26 de abril de 2009

desalinho


foto Carlos Vilela

Quando se descuida a alma
sou o corpo
em procura.

As mãos se aquietam
com qualquer desculpa.
É preciso ficar atento.
Todo cuidado é corpo.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quarta-feira, 15 de abril de 2009

rascunho



Kate, do blog Retrô, deu a idéia a Di, do blog A Fox Lady, de publicar uns manuscritos em suas páginas pra ver como são os garranchos de cada um. E eu seguindo as meninas.

Estão aí os meus reversos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

recorte

foto N. Bolm

Jogado no mundo
não há como se escapar:
todo passo
é decisivo,
todo caminho
dá para o norte,
todo corpo
é um gibão sobre a alma,
toda a vida
é o lado externo da morte,
todo peito
é um roçado
para toda safra
ser das rosas.

(um trecho de "Galope", do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

domingo, 29 de março de 2009

a página em branco


Escrevo, sem pensar, tudo o que meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi."
(Mário de Andrade)

É por isso, meus caros meia dúzia de leitores, que demoro muito a colocar os poemas nesta mal traçada página. Poema não é pipoca nem caldo de cana, que rapidinho se produz.

domingo, 15 de março de 2009

minh'avó


foto Henri Cartier-Bresson

Minh’avó caminhava pela grande casa.
Minh’avó muito pequena, até um dia desses,
caminhava pela grande casa.
Continuava com seus passos
seu cansaço
seus laços.


Minh’avó alterou a lei da física:
carregava no seu espinhaço tão frágil
décadas décadas décadas
datas datas datas
dias dias dias
carregava festas
aniversários
e algumas compras
carregava guerras
revoluções
e algumas brigas.

Teimosa, não se dava conta de toda essa carga
e olhava pela janela
o automóvel na rua
a moça na calçada
e ninguém mais em direção à igreja.


(do livro “Trem da memória”)

quinta-feira, 5 de março de 2009

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você estar longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

promessa

foto Mona Kuhn

Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.

Como a vida é curta.

(do livro “Raios”)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

vice-versa

foto Patrick Talbert

Sou
comprido
e sem solução:
entre
os dois pólos
caminho teimoso
do norte ao sul
dos pés à cabeça
passando pelo mistério do coração
sou astronauta
e uso gibão
cavalgo curioso
da via-láctea ao sertão
e vice-versos
na minha
solidão.

(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

armadura

foto Mário Cravo Neto

Meu corpo é a única coisa que tenho
que é nada
e como suicida
luto contra moinhos, tempestades e solidão
que é tudo.


Escondo-me nesta armadura de ossos,
carne
e vestimentas
e espio a vastidão do mundo pelos buracos dos olhos
como quem espia lugares estranhos
infinitos
perigosos.

Meu corpo é a única coisa que tenho
para carregar o pretexto da alma.
É magro, feio e escandaloso
o corpo
mas é única coisa que tenho
para caminhar pelo tempo e pelos sertões.

Garantia não tenho
se o meu corpo é forte e frágil ao mesmo instante
se sujeito-me ao abismo
ao chão
à poeira
se estou marcado para me tornar saudade
lembrança
e fotografias
e minha história não terá mais
um cavalo para montar
e serei uma estátua invisível no espaço.


Garantia não tenho
de nada
nada
não levarei escondido no bolso
nenhuma semente
nenhum suspiro
nenhum gesto
pois tudo é podre
condenável
consumível.

Só é garantido o mais difícil:
a miragem na imensidão
o que se supõe ao longe
o completo mistério
para se chegar até lá
não se sabe com que corpo
não se sabe com que asas
não se sabe.

(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

um recorte

foto Bruce Taj

O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.


(do poema “Abstrato”, livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

regime

foto Manuel Sardinha

Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.

De doce basta a vida.

(do livro “Raios”)

domingo, 28 de dezembro de 2008

esconde-esconde

foto Jean-Sebastien Monzani

Você troca tudo de lugar
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.


Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.


Você troca os cds de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar

Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.

(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 27 de dezembro de 2008

lençol

foto Dominique Lefort

Cubro
o teu corpo nu
com
o meu corpo nu.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

luar

foto Kiriko Shirobayashi

Vislumbro uma luz sob a porta.
Ando.
Uma réstia toca a minha pele.


Esqueceram a lua acesa.

(do livro “Raios”)

sábado, 20 de dezembro de 2008

madrugada

foto Rosalina Afonso

Os poetas dormem tarde.
A poesia é que acorda cedo.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

medida

foto Carlo Santis

Caberão no poema

quando
soltos,
os beijos

quando
largos,
os abraços


quando
estradas,
os passos
?


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 14 de dezembro de 2008

recorte

foto Maurício Rolo

Cada gesto posto no espaço
me subtrai (um pouco) a intimidade.

(um verso de "Postura", do livro "Poesia provisória")

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

presença

foto Lukas Lehmer

Vivo em ti
todos os momentos de mim.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

asas

foto Bogdar Jarocki

Tirem-me a roupa
o chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim


tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim

tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 7 de dezembro de 2008

prazo

foto Mila Petrelle

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali
avista-se uma cidade acolá.


E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...


(do livro “Poesia provisória”)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

cofre

foto Sander Levini

Quando quiseres
venhas
e gires com as pontas dos dedos
o meu coração.

Encontrarás
teus segredos nos meus olhos abertos.
Guardo no peito
o íntimo
de quem se achega.

(Do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

metade

foto David Martins

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas


Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

 

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.



(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 16 de novembro de 2008

sobre viver

Gil Vicente, nanquim sobre papel

só escaparemos se conversarmos
se sentarmos
à mesma mesa
e trocarmos olhares
como amigos
ou como sobreviventes.


(do livro “A paisagem e a distância”)

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

pronominal

foto Marin

É preciso
que nossos dedos se enlacem
sem necessariamente
que nós em nós se passem.

É preciso
que num eclipse eu desapareça
sem que lhe abandone
e quando a lua passar você me esqueça.

É preciso
que eu tenha seu prenome
sem que lhe substitua
quando assinar embaixo o seu sobrenome.

Por certo:
ninguém ama por decreto.

(do livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

linha

foto Christian Dule


Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.


Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem segue em desalento.

(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

domicílio

foto Michael Kenna

Não me procure nesse endereço:
meu coração mudou-se.
Pouco resta do antigo inquilino.


A casa está vazia.


(do livro “Raios”)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

regime

foto Manuel Sardinha

Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.


De doce basta a vida.


(do livro “Raios”)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

reverso

foto Bogdar Jarocki

Já que entre nós
todo o contrário é crível

não desfaça cerimônia:
volte o mais rápido impossível.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 23 de setembro de 2008

a paisagem e a distância (fragmento)

foto Nelson Kon

o que é uma cidade
na história de
um homem?
não se sabe ao certo
como não se explica
por que esse homem respira
e o que alimenta
tantos desejos

a cidade
(no final das contas
e das ruas)
é mistura confusa
de susto e alívio
que abraça e larga
nossa carne
como quem ama e desaparece


apesar dos desenhos
que orientam o presente
a cidade
é o mistério
sobre a cabeça dos homens
que caminham sobre passos
novos a cada desejo
grandes a cada abraço
profundos a cada vontade.

(do livro "A paisagem e a distância")

domingo, 7 de setembro de 2008

cofre

foto Pat Nickplemse

Quando quiseres
venhas
e gires com as pontas dos dedos
o meu coração.

Encontrarás
teus segredos nos meus olhos abertos.

Guardo no peito
o íntimo
de quem se achega.

(do livro "Poesia provisória")

sábado, 12 de julho de 2008

multidão

foto David Martins

Chora quem conheço.
Choram aqueles longe de mim.
Chora até você que me fez ver:


A dor não é um privilégio meu.

(do livro “Raios”)

terça-feira, 8 de julho de 2008

carinho

foto Pascal Renoux

Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além dessa
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)


mas é vôo
tudo que o amor
nesse momento conduz ao sempre.


(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

namorada

foto Ashley Keynes

Hoje, como em todos os dias, eu faço um filme de amor para você. Eu escrevo um poema com as mais belas palavras que eu possa extrair do meu coração. Eu componho uma música com os melhores arranjos de flores.

Hoje, como em todos os dias, eu digo que lhe amo.

terça-feira, 3 de junho de 2008

exílio

foto Lukas Stevenson

Escrevo-te distante.
Não meu corpo tão longe do mar:
distante do oceano.

Vivo por enquanto a quilômetros de mim.
O que restou aos teus olhos
é o que mantém a lembrança
de um pouco que me definia.

Vago a olhar-me para trás
e de lá tento me alcançar de volta.

Não me perguntes o que houve.
Tão logo um lado e outro se reencontrem
passarei por tua casa.

(do livro “Poesia provisória”)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

estima

foto Gyulis Santis

O homem é um bicho-homem
que não sabe se é um rato,

fosse o homem mesmo um rato
talvez não tivesse esse nome

posto que pode ser lobisomem
o homem não sabe o que é de fato.

Homem e rato – ambos têm fome
e comem tudo que está no mato,

quando comem, comem e somem
deixando sem fundo o chão e o prato;

mesmo não sendo um rato
o homem corre com medo da fome

como o rato corre do gato
que come o rato com medo da fome.

O homem (quem sabe...) é um passarinho
sem asas, sem bico e sem verão

que vive a vida atrás do ninho
angustiado no que chama solidão,

corre o mundo, sem parente, sem vizinho
montado no seu corpo feito alazão

carente de abraço, pão e vinho
perdido no céu, no mar e no sertão

sem saber se no incerto caminho
voa como pássaro ou avião.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

trem da memória (fragmento)

foto Mario De Biasi

Tudo foi tão de repente
diante dos meus olhos
que não houve tempo
para retornar ao corpo do menino
que brincava na calçada.

A memória viaja
- trem inútil -
e não traz as roupas
que se vestia nas tardes de domingo
e a estrada some
deixando o mundo
como um grande circo
na praça da estação.

(do livro “Trem da memória – um poema”)

quarta-feira, 26 de março de 2008

promessa

foto Mona Kuhn

Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.

Como a vida é curta.

(do livro “Raios”)

segunda-feira, 17 de março de 2008

mímica

foto Bruce Taj

Os gestos lentos das mãos
somem com as máscaras no rosto
dia
após
dia:
até nada mais restar
sobre os ossos da face.

O destino das vértebras
sabe dele o chão

e
dos pensamentos
fica nos outros
o que passou pelo coração.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

dados pessoais

foto Daniela Labieni

Cinqüenta e muitos quilos
de idade e fome.
Vinte e tantos e espantosos anos
que a vida pesa em mim.

Do lado esquerdo
o coração incomoda
quando inquilino
quando solitário
e se eu pudesse arrancá-lo
não o faria.

Sou o encontro de duas vogais
entre o menino que se foi
e aquele senhor que se aproxima.
O presente
é esse grito na janela
esse silêncio no quarto
à guisa de forças
para carregar esses anos e esses quilos.


(do livro “Roteiro dos pássaros remixado")

domingo, 13 de janeiro de 2008

anônimo

foto Jerry Schatzberg

Eu nunca deixo pistas dos meus pecados.
Escondo meus delitos
e deixo a condenação para a volta.
Estou muito apressado.

Eu nunca deixo atalho
para me descobrirem:
prefiro o próximo encontro
com o que encontrar próximo aos meus olhos.

Eu nunca deixo traços dos meus planos.
Deixo o resultado de tantos enganos
como pudesse ser também seu
aquilo que foi somente meu.

Não passo procuração para sentimentos
enquanto viajo para lugar desconhecido.

Este poema pode me custar a vida.
Podem me custar os amigos.
E me gostarem os inimigos.

Mas não deixarei rascunho dos meus reversos.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 6 de janeiro de 2008

linha

foto Ryan McVay

Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.

Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem se perdeu
e segue em desalento.

(do livro “Poesia provisória”)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

metade



O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

linhagem

foto Kiriko Shirobayashi

Nossos filhos
dormem no quarto ao lado.
O amor assim me convence
que ele se estende
nos sonhos que não nos pertencem.

(do livro “Raios”)