(Os poemas aqui publicados estão registrados na Biblioteca Nacional. Podem ser reproduzidos desde que mencionados a fonte e o autor)
quarta-feira, 22 de julho de 2009
segunda-feira, 13 de julho de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
desdém
terça-feira, 16 de junho de 2009
reverso
todo o contrário é crível
não desfaça cerimônia:
volte o mais rápido impossível.
(do livro "Poesia provisória")
quinta-feira, 4 de junho de 2009
abstrato
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
terça-feira, 19 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Cântico Negro
Na década de 70, Walmor Chagas fez um espetáculo, "Os portugueses", onde interpreta vários poetas, de Camões à Antônio Botto, passando por Fernando Pessoa, Cesário Verde, Mário Sá-Carneiro, e entre outros igualmente importantes, José Régio. Foi a melhor interpretação de "Cântico Negro" que já vi-ouvi-vivi. Mas não encontrei registro dessa apresentação.
A interpretação de Maria Bethânia, de 1982, é também comovente, tão bela quanto o poema.
sábado, 2 de maio de 2009
parecer
Pode ler
pode guardar
pode rasgar.
Tenho versos para todos os desgostos.
(do livro “Poesia provisória”)
domingo, 26 de abril de 2009
desalinho
Quando se descuida a alma
sou o corpo
em procura.
As mãos se aquietam
com qualquer desculpa.
É preciso ficar atento.
Todo cuidado é corpo.
(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")
quarta-feira, 15 de abril de 2009
rascunho

sexta-feira, 10 de abril de 2009
domingo, 29 de março de 2009
a página em branco

domingo, 15 de março de 2009
minh'avó

Minh’avó muito pequena, até um dia desses,
caminhava pela grande casa.
Continuava com seus passos
seu cansaço
seus laços.
Minh’avó alterou a lei da física:
carregava no seu espinhaço tão frágil
décadas décadas décadas
datas datas datas
dias dias dias
carregava festas
aniversários
e algumas compras
carregava guerras
revoluções
e algumas brigas.
Teimosa, não se dava conta de toda essa carga
e olhava pela janela
o automóvel na rua
a moça na calçada
e ninguém mais em direção à igreja.
quinta-feira, 5 de março de 2009
apartado
quando as coisas estão paradas.
É por você estar longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.
O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.
Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.
O medo nos distancia
das coisas em movimento.
(do livro “Poesia provisória”)
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
promessa
Ela disse
que me amaria para o resto da vida.
Ela me disse.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
vice-versa
Sou
comprido
e sem solução:
entre
os dois pólos
caminho teimoso
do norte ao sul
dos pés à cabeça
passando pelo mistério do coração
sou astronauta
e uso gibão
cavalgo curioso
da via-láctea ao sertão
e vice-versos
na minha
solidão.
(do livro “Poesia provisória”)
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
armadura
Meu corpo é a única coisa que tenho
que é nada
e como suicida
luto contra moinhos, tempestades e solidão
que é tudo.
Escondo-me nesta armadura de ossos,
carne
e vestimentas
e espio a vastidão do mundo pelos buracos dos olhos
como quem espia lugares estranhos
infinitos
perigosos.
Meu corpo é a única coisa que tenho
para carregar o pretexto da alma.
É magro, feio e escandaloso
o corpo
mas é única coisa que tenho
para caminhar pelo tempo e pelos sertões.
Garantia não tenho
se o meu corpo é forte e frágil ao mesmo instante
se sujeito-me ao abismo
ao chão
à poeira
se estou marcado para me tornar saudade
lembrança
e fotografias
e minha história não terá mais
um cavalo para montar
e serei uma estátua invisível no espaço.
Garantia não tenho
de nada
nada
não levarei escondido no bolso
nenhuma semente
nenhum suspiro
nenhum gesto
pois tudo é podre
condenável
consumível.
Só é garantido o mais difícil:
a miragem na imensidão
o que se supõe ao longe
o completo mistério
para se chegar até lá
não se sabe com que corpo
não se sabe com que asas
não se sabe.
(do livro “Poesia provisória”)
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
regime
Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.
De doce basta a vida.
(do livro “Raios”)
domingo, 28 de dezembro de 2008
esconde-esconde
foto Jean-Sebastien Monzaniesconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.
Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.
Você troca os cds de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar
Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.
(do livro “Poesia provisória”)
sábado, 27 de dezembro de 2008
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
sábado, 20 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
medida
soltos,
os beijos
largos,
os abraços
estradas,
os passos
?
(do livro “Poesia provisória”)
domingo, 14 de dezembro de 2008
recorte
me subtrai (um pouco) a intimidade.
(um verso de "Postura", do livro "Poesia provisória")
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
asas
foto Bogdar Jarockio chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim
tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim
tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim
(do livro “Poesia provisória”)
domingo, 7 de dezembro de 2008
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
metade
foto David Martinsnão é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).
Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.
(do livro “Poesia provisória”)
domingo, 16 de novembro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
pronominal
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
linha
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.
Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem segue em desalento.
(do livro “Poesia provisória”)
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
domicílio
meu coração mudou-se.
Pouco resta do antigo inquilino.
A casa está vazia.
(do livro “Raios”)
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
regime
como medida.
Não ponha açúcar no café.
De doce basta a vida.
(do livro “Raios”)
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
reverso
terça-feira, 23 de setembro de 2008
a paisagem e a distância (fragmento)
foto Nelson Konna história de
um homem?
não se sabe ao certo
como não se explica
por que esse homem respira
e o que alimenta
tantos desejos
a cidade
(no final das contas
e das ruas)
é mistura confusa
de susto e alívio
que abraça e larga
nossa carne
como quem ama e desaparece
apesar dos desenhos
que orientam o presente
a cidade
é o mistério
sobre a cabeça dos homens
que caminham sobre passos
novos a cada desejo
grandes a cada abraço
profundos a cada vontade.
domingo, 7 de setembro de 2008
cofre
Quando quiseres
venhas
e gires com as pontas dos dedos
o meu coração.
Encontrarás
teus segredos nos meus olhos abertos.
Guardo no peito
o íntimo
de quem se achega.
(do livro "Poesia provisória")
sábado, 12 de julho de 2008
terça-feira, 8 de julho de 2008
carinho
Minha mão passeia
sobre a fertilidade de tua pele
e não existe nada mais além dessa
eternidade.
Passeia como se voasse
(se pássaro eu fosse
e asas minhas mãos lentas)
mas é vôo
tudo que o amor
nesse momento conduz ao sempre.
(do livro “Poesia provisória”)
quinta-feira, 12 de junho de 2008
terça-feira, 3 de junho de 2008
exílio
foto Lukas StevensonNão meu corpo tão longe do mar:
distante do oceano.
O que restou aos teus olhos
é o que mantém a lembrança
de um pouco que me definia.
e de lá tento me alcançar de volta.
Tão logo um lado e outro se reencontrem
passarei por tua casa.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
estima
foto Gyulis Santis(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)
quinta-feira, 24 de abril de 2008
trem da memória (fragmento)
diante dos meus olhos
que não houve tempo
para retornar ao corpo do menino
que brincava na calçada.
A memória viaja
- trem inútil -
e não traz as roupas
que se vestia nas tardes de domingo
e a estrada some
deixando o mundo
como um grande circo
na praça da estação.
(do livro “Trem da memória – um poema”)
quarta-feira, 26 de março de 2008
segunda-feira, 17 de março de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
dados pessoais
foto Daniela Labienide idade e fome.
Vinte e tantos e espantosos anos
que a vida pesa em mim.
Do lado esquerdo
o coração incomoda
quando inquilino
quando solitário
e se eu pudesse arrancá-lo
não o faria.
Sou o encontro de duas vogais
entre o menino que se foi
e aquele senhor que se aproxima.
O presente
é esse grito na janela
esse silêncio no quarto
à guisa de forças
para carregar esses anos e esses quilos.
(do livro “Roteiro dos pássaros remixado")
domingo, 13 de janeiro de 2008
anônimo
foto Jerry SchatzbergEscondo meus delitos
e deixo a condenação para a volta.
Estou muito apressado.
Eu nunca deixo atalho
para me descobrirem:
prefiro o próximo encontro
com o que encontrar próximo aos meus olhos.
Eu nunca deixo traços dos meus planos.
Deixo o resultado de tantos enganos
como pudesse ser também seu
aquilo que foi somente meu.
Não passo procuração para sentimentos
enquanto viajo para lugar desconhecido.
Este poema pode me custar a vida.
Podem me custar os amigos.
E me gostarem os inimigos.
Mas não deixarei rascunho dos meus reversos.
(do livro “Poesia provisória”)
domingo, 6 de janeiro de 2008
linha
Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.
Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem se perdeu
e segue em desalento.
(do livro “Poesia provisória”)
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
metade

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).
Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita.
(do livro "Poesia provisória")





































