segunda-feira, 31 de maio de 2010

sobre viver

 
 Gil Vicente, papel sobre nanquim
 
só escaparemos se conversarmos
se sentarmos
à mesma mesa
e trocarmos olhares
como amigos
ou como sobreviventes.

(do livro "A paisagem e a distância")

terça-feira, 25 de maio de 2010

asas

 foto Bogdar Jarocki

Tirem-me a roupa
o chapéu contra o sol
tirem-me até os braços
as pernas
tampem-me os olhos
mas não tirem as asas
que criei pra mim

tirem-me o domingo
a manhã contra a noite
tirem-me até os feriados
os dias santos
rasguem os calendários
mas não tirem o tempo
que criei pra mim

tirem-me os lábios
o beijo contra o gelo
tirem-me até a voz
o delírio
adormeçam o sexo
mas não tirem o coração
que criei pra mim. 

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 11 de maio de 2010

sempre

foto Marin

Eu te quero
com a mesma intensidade
em que me guardo
embora
sempre no menor gesto
do olhar
me entrego de volta
sem nunca ter partido.


(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 3 de maio de 2010

prenúncio

foto Sidney Saniago
 
Faço
suas feições
no meu coração
seus contornos
na minha pele
seu endereço
no meu peito.

Nunca me devolva
a mim se me ganha.
Eu já me entreguei
e você não levou.
Aguardo-lhe com minha memória.

Ameaça partir,
menina má:
você adora assustar o trovador.
(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 27 de abril de 2010

largura

foto Pascal Renoux

O melhor momento
é ser contigo sempre
pois não se larga uma parte de si
não se parte da largura de si.


(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 6 de abril de 2010

simetria

foto David Fokos
 
O estender do mar é como o impossível:
o lado de cá
é
sempre
o infinito do lado de lá.

E entender de amar é como o impossível:
o meu lado de cá
é
sempre
o infinito do teu lado de lá.

(do livro “Poesia provisória”)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

avesso

 foto Bettmann Corbis

Eu acendo a luz
você me deixa no escuro.

Eu estendo pontes
você ergue muros.

Assim não dá!

(do livro "Raios")

sábado, 6 de março de 2010

seletivo

foto Jean-Sebastien Monzani

Quem é você para vender
falsos sonhos e enciclopédias
no terreiro de minha casa?

Tire os seus sapatos:
no meu chão sagrado
só caminha quem tem asas.

(do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

afluente

foto Christian Coigny

Na minha terra
há também um rio.
Um rio
que corta minha cidade
que corta minha vida
que corta este poema.

Ele vem
vai
e vem
com suas enchentes
(as enchentes
na cidade
as enchentes
na minha vida
as enchentes
neste poema
- quando não resisto mais

às lembranças,
às represas,
aos mergulhos).


(trecho do livro “Trem da memória - um poema")

sábado, 20 de fevereiro de 2010

bagagem

foto Edward Dimsdale

Dentro de mim
cabe uma cidade
outra cidade
e mais uma cidade
dentro de mim
cabe o universo
e mais o vilarejo onde nasci

meus pés
arrastam lembranças
espalham o cheiro da terra
soltam o corpo no sorriso
todas as veias
do coração
bifurcam na próxima cidade
e levam ao mesmo rio
diante do sol
abrem o meu olhar
horizontando o dia.

(do livro "Poesia provisória")

domingo, 7 de fevereiro de 2010

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você estar longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

anônimo

foto Nicholas Davies

Eu nunca deixo pistas dos meus pecados.
Escondo meus delitos
e deixo a condenação para a volta.
Estou muito apressado.


Eu nunca deixo atalho
para me descobrirem:
prefiro o próximo encontro
com o que encontrar próximo aos meus olhos.

Eu nunca deixo traços dos meus planos.
Deixo o resultado de tantos enganos
como pudesse ser também seu
aquilo que foi somente meu.

Não passo procuração para sentimentos
enquanto viajo para lugar desconhecido.

Este poema pode me custar a vida.
Pode me custar os amigos.
E me gostarem os inimigos.

Mas não deixarei rascunho dos meus reversos.


(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 24 de janeiro de 2010

prenúncio


 foto Marc Weisman
 
Faço
suas feições
no meu coração
seus contornos
na minha pele
seu endereço
no meu peito.

Nunca me devolva
a mim se me ganha.
Eu já me entreguei
e você não levou.
Aguardo-lhe com minha memória.

Ameaça partir,
menina má:
você adora assustar o trovador.

(do livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

a mais completa tradução


foto Marcus Claesson

"Ser poeta é tirar de onde não tem e colocar onde não cabe."

(Pinto do Monteiro, repentista paraibano)

domingo, 3 de janeiro de 2010

esconde-esconde

foto Jean-Sébastien Monzani

Você troca tudo de lugar
esconde minhas roupas
para quando no amanhecer eu lhe procurar.

Você troca o sol pelo luar
esconde os meus beijos
para não amanhecer quando a noite acabar.

Você troca os cds de lugar
esconde os meus livros
para quando amanhecer eu me desesperar

Meu peito alcança o seu olhar.
A casa é pequena, o abraço tão largo:
eu sei onde seu coração está.


(do livro “Poesia provisória”)

sábado, 26 de dezembro de 2009

linhagem


foto Kiriko Shirobayashi

Nossos filhos
dormem no quarto ao lado.
O amor assim me convence
que ele se estende
nos sonhos que não nos pertencem.

(do livro "Raios")

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

linha

foto Thad Selling

Essa linha que nos separa
no meio da sala
é a mesma que estranhamente
nos enlaça
e assim como nos ameaça
nos joga no mesmo abraço.



Se você parte por um século
ou por segundos me ausento,
fica sempre do outro um pedaço
na viagem solitária
de quem segue em desalento.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 6 de dezembro de 2009

indefinido

foto Lukas Fiorki


Faço poemas enquanto estou errado.
Enquanto sou imperfeito.
Porque nada entendo.


Faço poemas para a vida inteira.


(do livro “Raios”)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

toda


 foto Pietro Adelchi
 
Volta 
e
meia
a
lua
volta
inteira.

(do livro "Poesia provisória")

domingo, 8 de novembro de 2009

exílio


foto Lukas Stevenson
   
Escrevo-te distante.
Não meu corpo tão longe do mar:
distante do oceano.


Vivo por enquanto a quilômetros de mim.
O que restou aos teus olhos
é o que mantém a lembrança
de um pouco que me definia.


Vago a olhar-me para trás
e de lá tento me alcançar de volta.


Não me perguntes o que houve.
Tão logo um lado e outro se reencontrem
passarei por tua casa.


(do livro “Poesia provisória”)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

o morto


Gil Vicente, nanquim sobre papel

O morto
tomou destino ignorado:

em que planície nos céus
sibila o seu silêncio?

Com sua armadura desfeita
o que resta é inútil:
não suporta o vento
(que sopra com a chuva)
não será restaurado nos museus
(que espiam a história)
nem se moverá com as lembranças
(que amontoam os retratos).

O morto
tomou destino ignorado.

II
Não tenham medo:
o morto não se levantará
de sua solene posição

deitado como nunca
com seu nariz e seu sapato
             em
              riste. 

III
O morto
      (saibam)
não segue no cortejo:
      segue um morto
      (peso inútil)
      que o limite do nosso olho vê.

IV
O morto independe da vontade
dos que lhe jogam areia e flores
dos que lhe dizem orações e calam
dos que choram e esquecem
-          o morto
                  agora
                            é eterno.

V
Lembramos o tamanho do morto
com suas roupas
com sua voz
com sua dor
e choramos o tamanho que falta
                      a lágrima que salta
                      em nós
até quando aprendermos
a não ser somente vivos.
  
VI
De nada mais sabemos
até que o morto nos mande notícias
e que seu vulto passe ao longe
como passam os viajantes
                               (depois)
                               do entardecer.

VII
Maior é o morto
       na viagem
que ele continua
  
(em que planície nos céus?).


(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

regime



foto Manuel Sardinha 

Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.

De doce basta a vida.

(do livro "Raios")

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

viés


foto Carlos Vilela

O poeta percebe 
de forma
estranha.
Por isso percebe. 

(do livro "Poesia provisória")

domingo, 4 de outubro de 2009

lençol


 foto Pedro Miguel Costa

  Cubro
o teu corpo nu
com
o meu corpo nu.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

sábado, 26 de setembro de 2009

seguro que fue por su boca



Minha amada, minha doce cara metade, estou seguro que foi por sua boca. Encontrei sua roupa junto a minha, seu corpo junto ao meu. Seus dias juntos aos meus. Feliz aniversário!

No se si fue por los vino,
no se si fue por su boca
pero entre tanto tango encontré
su ropa, junto a mi ropa.


No se si fue por Castillo,
Pugliese, Troilo o Darienzo
pero su abrazo en mis manos
era un pincel y la pista un lienzo


Hay los vino, seguro que fueron los vino
(Yo no fuí)


Seguro que fueron…los vino.
No se si fue por los vino,
no se si fue por su aliento
pero entre tanda y tanda encontré
su ombligo, junto a mi cuerpo.


Y así volando en la gloria
Y aterrizando en la ruina
yo fui cayendo y cayendo
en la red de esas medias…asesinas


Hay los vino, seguro que fueron los vino
(Yo no fuí)
Seguro que fueron…los vino.


(Los Vino', composição de M. Di Genova, com Otros Aires)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

longe

 foto Larry Wiese
  
em algum lugar
o mar existe
para algum porto
ser avistado.
(do livro "A paisagem e a distância")

terça-feira, 1 de setembro de 2009

suspense

foto Jean-Sebastien Monzani 
  
Que viagem é essa
(que fazemos)
durante dias
noites
e  eclipses
dentro de um corpo
 (vagarosamente)
para frente
    (que não vemos)?
Existirão braços abertos
  ou abismos estendidos
no final de nossos olhos?
Haverá festa
 luzes
bandeiras
gente na estação?
Haverá (depois)
tranquilidade
planície
 sonho
 ou
solidão?
      (do livro “Poesia provisória”)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

aceno

foto David Santies

das entranhas
das terras
do solo materno
do chão do meu pai
me arrebentei numa cidade
com porta e janela
para o mar
onde meus olhos miravam outro continente
como uma lembrança...

(do livro “A paisagem e a distância”)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

navegante

foto Shepper Dann


Eu que sempre navego
ao sul do teu corpo
é no sal de tua pele
que conservo meus segredos
e espalho os meus beijos.


(do livro "Poesia provisória")

segunda-feira, 13 de julho de 2009

matutino

foto N.Meilner

Os poetas dormem tarde.
A poesia é que acorda cedo.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 1 de julho de 2009

desdém

foto Paul Laswel

Pouco me importam suas ameaças.

Sei que um dia
com a noite vou me embora.
Não sei a que custo
com que fala
talvez de vício.

Por enquanto
durmo agarrado aos meus amores.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 16 de junho de 2009

reverso

foto Lukas Linberkley

Já que entre nós
todo o contrário é crível

não desfaça cerimônia:
volte o mais rápido impossível.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 4 de junho de 2009

abstrato

foto Rosalina Afonso

No tempo tudo cabe
tudo muda de lugar
tudo some
não ficam parados no espaço
o gosto das frutas
e o cheiro dos homens.
O tempo dispensa a vontade alheia
impõe-se sobre a selva e a cidade
e destas nascem as folhas e os filhos
que o próprio tempo amadurece e faz saudade.
O tempo – enorme! – eleva os deuses
arrasta os homens
e espalha o mistério de uns
sobre a solidão dos outros.
De muito longe o tempo caminha
não como um velho
tão pouco uma criança:
unicamente caminha
- e sugere a esperança
e adormece as rugas.
O tempo não é o mesmo
sobre os aviões e os pássaros:
nas asas de um
é tudo muito rápido
nas asas do outro
é tudo muito livre.
(do livro “Poesia provisória”)

terça-feira, 19 de maio de 2009

cinzel

foto Carlos Vilela

Viver:
esculpir
o
tempo.


(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 12 de maio de 2009

Cântico Negro



Amanheci com "Cântico Negro" na cabeça, um dos mais belos poemas de todos os tempos, escrito pelo português José Régio, em 1925.

Na década de 70, Walmor Chagas fez um espetáculo, "Os portugueses", onde interpreta vários poetas, de Camões à Antônio Botto, passando por Fernando Pessoa, Cesário Verde, Mário Sá-Carneiro, e entre outros igualmente importantes, José Régio. Foi a melhor interpretação de "Cântico Negro" que já vi-ouvi-vivi. Mas não encontrei registro dessa apresentação.

A interpretação de Maria Bethânia, de 1982, é também comovente, tão bela quanto o poema.

sábado, 2 de maio de 2009

parecer

foto Marília Campos

Pode ler
pode guardar
pode rasgar.

Tenho versos para todos os desgostos.

(do livro “Poesia provisória”)

domingo, 26 de abril de 2009

desalinho


foto Carlos Vilela

Quando se descuida a alma
sou o corpo
em procura.

As mãos se aquietam
com qualquer desculpa.
É preciso ficar atento.
Todo cuidado é corpo.

(do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

quarta-feira, 15 de abril de 2009

rascunho



Kate, do blog Retrô, deu a idéia a Di, do blog A Fox Lady, de publicar uns manuscritos em suas páginas pra ver como são os garranchos de cada um. E eu seguindo as meninas.

Estão aí os meus reversos.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

recorte

foto N. Bolm

Jogado no mundo
não há como se escapar:
todo passo
é decisivo,
todo caminho
dá para o norte,
todo corpo
é um gibão sobre a alma,
toda a vida
é o lado externo da morte,
todo peito
é um roçado
para toda safra
ser das rosas.

(um trecho de "Galope", do livro "Roteiro dos pássaros - remixado")

domingo, 29 de março de 2009

a página em branco


Escrevo, sem pensar, tudo o que meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi."
(Mário de Andrade)

É por isso, meus caros meia dúzia de leitores, que demoro muito a colocar os poemas nesta mal traçada página. Poema não é pipoca nem caldo de cana, que rapidinho se produz.

domingo, 15 de março de 2009

minh'avó


foto Henri Cartier-Bresson

Minh’avó caminhava pela grande casa.
Minh’avó muito pequena, até um dia desses,
caminhava pela grande casa.
Continuava com seus passos
seu cansaço
seus laços.


Minh’avó alterou a lei da física:
carregava no seu espinhaço tão frágil
décadas décadas décadas
datas datas datas
dias dias dias
carregava festas
aniversários
e algumas compras
carregava guerras
revoluções
e algumas brigas.

Teimosa, não se dava conta de toda essa carga
e olhava pela janela
o automóvel na rua
a moça na calçada
e ninguém mais em direção à igreja.


(do livro “Trem da memória”)

quinta-feira, 5 de março de 2009

apartado

foto Jean-Sebastien Monzani

A distância nos dá medo
quando as coisas estão paradas.

É por você estar longe
e não ter previsão alguma do tempo
que o presente continua sobre a mesa.

O mundo parece inútil
nesse pedaço em que não posso tocá-la.
Deve ser impressão desfocada dos olhos
ou sua ausência é uma eternidade em mim e na sala.

Há um telefone, uma porta e meus passos contidos.
Para cada lado o espaço para se medir.
O coração achará em algum canto as chaves e os motivos
para lhe encontrar na volta em vez de partir.

O medo nos distancia
das coisas em movimento.

(do livro “Poesia provisória”)