sábado, 25 de agosto de 2012

ventania

Ricardo Augusto musicou belamente meu poema "Ventania", Lúcio Ricardo gravou belamente com sua voz.  A felicidade é isso, também. É ver, ouvir um texto que se escreveu sem necessariamente com o propósito de musicá-lo, e depois, ouvir esse texto em melodia, devidamente colocado em suas pontuações e sentimentos expressos. Eu não sou um letrista para canções. Sou apenas um poeta e escrevo poema como quem parte. A poesia tem sua musicalidade. E quando um poema já com seu corpo definido ganha uma melodia ele se engrandece como quem ganha uma alma, uma outra essência, ele ganha outra beleza de leitura, ele se duplica. E se triplica na audição de terceiros, para quem no fundo um trabalho é direcionado: para todos. Depois que Ricardo Augusto musicou esse poema, publicado no meu primeiro livro, "Roteiro dos pássaros", de 1981,  leio como se ele tivesse renascido sem nunca ter findo. O artista é finito, a arte atravessa o mar, amplia-se no tempo. A arte é maior. A voz de Lúcio Ricardo sobre meu poema dá a ele uma autoria, porque no momento que ele interpreta reescreve o poema que Ricardo Augusto musicou, que pari num momento da minha vida tentando entender o que os meus olhos miravam. "Ventania" agora não é mais meu, é também dos dois Ricardos.
 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

transitivo

foto Bogdar Jarocki

A minha fala
só é
fala
quando
muda.
A minha fala
não é
fala
quando não move.
- aí
ela é muda.


A minha mudez
só é
mudez
quando
fala.
A minha mudez
não é
mudez
quando
não estala
- aí
ela cala.
(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

dia de tudo

 foto Mila Petrelle 

Hoje, 25 de julho, diz uma folhinha que é o Dia do Escritor. Para mim, todos os dias são dias de todos e de tudo. Hoje, por exemplo, é aniversário do meu cunhado, que não é escritor. E eu tenho essa mania de escrever, mas hoje não é meu aniversário.

Um dia comemorativo é bom para lembrar que todos os dias são comemorativos, pelo trabalho, pelo ofício, pelo sacrifício, pelo desejo, pelo prazer, pelo apego, pela ausência, pelo esperança, pela saudade.

E pra não dizer que não falei de versos, deixo aqui a todos nós que nos debulhamos em bem e mal traçadas linhas, meu mais completo poema inacabado:

PRAZO

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.

E essas correções, dores e risos

costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro Poesia Provisória)

terça-feira, 10 de julho de 2012

se todos fossem iguais a vocês

Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, fotografados por Moacir Gomes, na casa de Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1966. Eles foram lá para conversar com um hóspede igualmente ilustre, Pablo Neruda.

Olho imantado essa foto como se olha uma imagem sacra.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

écran

ÉCRAN
(dedicado ao Nirton Venancio)
De Rubens Guilherme Pesenti, São Paulo 
 
 
É bom saber do carinho dos amigos que seguimos abraçando o mundo. 
Grato, querido Rubens.

terça-feira, 15 de maio de 2012

dor

o
     odor
  da dor
    a dor
       dor
              dormido
                     ido
                                 o amor:
                                       morte.

(do livro "Roteiro dos pássaros ")


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

trem da memória (fragmento)


Ah, personagens desse mundo lá de trás,
imaginavam vocês
que
eu, mais do que olhava,
via
fotograficamente
todos
e
tudo isso?


Imaginavam vocês
que minha presença pequena
espionava
todos os rostos
todos os gestos
todos os passos
para
me contar tudo no futuro?

imaginavam vocês
(que
atravessavam corredores
atravessavam ruas
atravessavam dias
e
gargalhavam nas salas
se divertiam nas praças
choravam nos quartos
se entristeciam pela cidade
e
narravam proezas
escondiam verdades
e
calavam)
imaginavam vocês
que
eu tivesse olhos
ouvidos
e chinelos silenciosos
na espreita das portas
e das esquinas?


Hã, imaginavam?


Agora, eu lhes digo
(aos mortos e aos que restaram):
eu sei de tudo.



(Do livro “Trem da memória – um poema”)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

metade

foto Bogdar Jarocki

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita
.



(do livro “Poesia provisória")

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

quimera

O lençol no varal é sempre um poema ao vento.


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

regime

foto Manuel Sardinha 

Tenho seus beijos
como medida.
Não ponha açúcar no café.

De doce basta a vida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ocasião

 Douglas Felisman
 
Aproveito
o ensejo
para lhe dar um beijo.

A rima é pobre.
O gesto, nobre.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

feliz aniversário, Cris

meu coração bate feliz
e eu sei porque
minha aniversariante de toda a vida!

olhando juntos na mesma direção

terça-feira, 13 de setembro de 2011

acordo


Ei, vida, pisa devagar!
Vamos fazer um trato:
Faz de conta
que foi sem querer
esse seu lado perverso
e eu disfarço
minha dor em versos.

(do livro "Poesia provisória")

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

solar

Fernando Pessoa diz que uma tristeza é como um lago morto dentro de nós, e uma alegria, um dia de sol no nosso espírito. Em versos lá frente o poeta português diz sem fingimentos que "na ausência da amada o sol não brilha."

Esses poetas têm a mania de ficar nos auscultando.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

medindo nós dois

Ele tem dois cds, "O último dia de um homem sem juízo" (2008) e agora lançou "Que isso fique entre nós", um dos melhores discos que já ouvi este ano. 

O paulista Robson Pélico tem tocado direto no meu mp3. Pelo menos há uma semana, me inquieto e me conforto com suas letras extremamente poéticas, sua musicalidade longe da mesmice "pop", quando busco "qualquer sentido vago de razão... nestas noites quentes de verão".

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

distância


 "A distância mais longa é a que existe entre a cabeça e o coração." 

(Thomas Merton)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

navegante

foto Sherper Dan

Eu que sempre navego
ao sul do teu corpo
é no sal de tua pele
que conservo meus segredos
e espalho os meus beijos.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 26 de julho de 2011

metade

 foto Paul Russel

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 7 de julho de 2011

tempos afora


Outro dia me alegrei com uma citação que o cineasta Petrus Cariry fez ao meu filme, Um cotidiano perdido no tempo numa entrevista ao site SobreCinema.


Hoje, nesta manhã seca de quinta em Brasília, banho-me de mais contentamento ao ler a crônica do escritor Nilto Maciel em seu blog Literatura Sem Fronteiras, sobre nossos encontros e desencontros tempos afora.