domingo, 15 de março de 2015

âmago

Ninguém sabe
o que há
por trás
das
canções...

nem
das dores
de pássaros
que não voam.

(livro "Raios")

sábado, 14 de março de 2015

dia de tudo e de todos

Hoje, 14 de março, diz o calendário que é o Dia Nacional da Poesia. A data foi escolhida não sei por quem nem quando, em homenagem ao nascimento de Castro Alves. E tem o Dia Internacional da Poesia, no próximo 21 deste mês, e tem Dia do Escritor, 25 de julho, que não sei se é daqui, de lá, de qualquer país...

Para mim, todos os dias são dias de todos e de tudo. Hoje, por exemplo, é aniversário de uma amiga, que não é poeta. E eu tenho essa mania de escrever uns versinhos, mas hoje não é meu aniversário.

Um dia comemorativo é bom para lembrar que todos os dias são comemorativos, pelo trabalho, pelo ofício, pelo sacrifício, pelo desejo, pelo prazer, pelo apego, pela ausência, pelo esperança, pela saudade.
E pra não dizer que não falei de versos, deixo aqui a todos nós que nos debulhamos em bem e mal traçadas linhas, meu mais completo poema inacabado:

PRAZO

Impossível
terminar o poema nos próximos dias:
falta uma vírgula aqui
aguarda um sentimento ali,
avista-se uma cidade acolá.
E essas correções, dores e risos
costumam demorar
uma vida inteira...

(do livro Poesia Provisória)

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

vem

Some não.
Some-se.

(do livro Raios)

domingo, 4 de janeiro de 2015

paisagem lunar



volta
e
meia
a lua
volta
inteira

...

enquanto
a
lua
desce
minguante
 aguardo crescente no outro lado da rua.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

cais


em algum lugar
o mar existe
para algum porto 
ser avistado.

em algum porto
o amor insiste
para algum mar
ser navegado.

(do livro "Raios")

recall


Corrigir falhas detectadas em peças e sistemas do lado esquerdo do peito. O serviço é gratuito, mas demorado, basta o proprietário comparecer a uma concessionária do tempo com seu coração para realizar a manutenção.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

palavras


As palavras não leva o vento... as palavras têm a poder da oração, as palavras têm a súplica da prece, as palavras têm a insistência do mantra, as palavras tanto batem até que se escuta, tanto se escuta que ficam no coração.


bom dia


Estou lhe telefonando
porque
passei a noite
sonhando com você
e
seria deselegante
acordar
e não lhe cumprimentar.


(do livro "Poesia Provisória")

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

bússola

 foto: Alberto Monteiro
O que pressinto
me guia.
O que aparece
desconfio.

O que desejo
me norteia.
O que sugere
me previno.

O que choro
me revela.
O que sorrir
me resguardo.

O que escrevo
me entrega.
O que apago
me devolve.

domingo, 30 de novembro de 2014

cura


Coração mole
em pedra dura
tanto sofre
até que cura.


domingo, 23 de novembro de 2014

.,


entre
o seu olhar e o meu
prefiro
as vírgulas prováveis de cada dia
a colocar
um ponto final no impossível.



sábado, 21 de dezembro de 2013

terça-feira, 6 de agosto de 2013

,

entre
o seu olhar e o meu
prefiro
as vírgulas prováveis de cada dia
a colocar
um ponto final no impossível.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

o gato

 foto Jean-Sebastien Monzani

 Sob as estrelas
o gato é místico.
Passeia na noite
sobre os telhados de vidro
com suas patas silenciosas
como se tivesse planos e segredos
no percurso das suas sete vidas.

O gato vagueia nos telhados
e no meu coração,
pousa leve em cada passo
como pássaro
conspirador
misterioso
salta por cima dos que dormem
e não sonham comigo.

(do livro "Roteiro dos pássaros")

quinta-feira, 14 de março de 2013

viés

foto Carlos Vilela

O poeta percebe 
de forma
estranha.
Por isso percebe.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

o fôlego marginal

No ar o número 5 da revista Rebosteio, excelente, inquieta, provocante, reflexiva publicação eletrônica editada pelos caros amigos Rubens Guilherme Pesenti, Mercedes Lorenzo e Willian Delarte, figuras brilhantes da cena paulistana.

Temátic
a a cada fôlego, essa edição discute a cultura de rua, a marginal, a periferia, através de reportagens, ensaios, críticas, poemas, fotografias. Vibrante!

E mais uma vez tenho a oportunidade de estar por lá. Escrevi sobre o filme que me impressionou muito, "Eles voltam", de Marcelo Lordello, vencedor do Festival de Brasília ano passado. Inédito ainda no circuito comercial, o longa concorre esta semana ao prêmio Hivos Tiger, no prestigiado Festival de Internacional de Cinema de Roterdã, em Amsterdã.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

respirando poesia

No final do livro "Música", do excelente poeta maranhense Celso Borges, um texto a pretexto de um posfácio biográfico diz que "ele sabe que se não escrever, morre".

Ontem o poeta esteve falando, cantando, respirando seus poemas na Livraria
Sebinho, Brasília, no projeto "Da palavra ao verso", mediado pelo meu amigo, o ator Adeilton Lima. Talento, simpatia, e, sobretudo, simplicidade, envolviam como uma aura aquele moço cinquentão diante das pessoas magnetizadas por seus versos. É disso que sobrevive a alma do poeta: de escrever e do ato que se completa do outro lado em ser lido e ouvido. Se não, morremos. Sucubimos sem mais e com muito menos. Como poeta, sei disso. Respirei um pouco-muito do oxigênio de Celso na sua apresentação, ao ouvir sua poesia, ao me alimentar de seus versos, ao receber sua dedicatória no livro. Há beleza, sim, ao redor do nosso dia a dia. Mas a tristeza é senhora desde que o samba é samba. Por isso, Celso, cantando sua música eu mando essa tristeza embora. Abraçaço!

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

per si


Não quero seu verso enteado
na minha poesia.
Não se meta onde é chamado.
Faça de conta
que não escuta os meus apelos
e me deixe encontrar
esse endereço errado.

Quero o meu desencanto legítimo
e esse beijo desfazendo a azia.

Não me venha com tradução simultânea
para música que me castiga.
Não me meta onde sou cantado.
Faça de conta
que não entende esse estrangeiro
e me deixe desencontrar
esse futuro passado.

Quero o ronco do meu íntimo
e este coração que a alma mastiga.

(do livro "Poesia provisória")

terça-feira, 30 de outubro de 2012

de mãos dadas com Drummond

No meio do meu caminho tinha O poeta: Carlos Drummond de Andrade.

O primeiro poema que li ainda me alfabetizando foi "Mãos dadas". Aqueles versos serviram-me como guia, "o presente é tão grande, não nos afastemos...", como uma cartilha pa
ra aquele menino despertado pela poesia, "o tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes, a vida presente." Desde então, vim de mãos dadas com Drummond. Nenhum outro poeta me influenciou tanto nas minhas inquietações quanto ao sentimento do mundo: Pessoa, Bandeira, Cecília, Régio, Quintana, Gullar,
Manoel de Barros, Cabral, Faustino Whitman, Eliot, Rimbaud, todos eles entenderam minhas idas a Itabira.


Quando publiquei o meu primeiro livro, "Roteiro dos pássaros", em 1981, todos os capítulos foram abertos com epígrafes de versos de Drummond. Não tinha outro jeito, foi muito natural, e definia bem a minha poesia aprendiz. Meu amigo poeta Márcio Catunda tinha o contato de Drummond no Rio de Janeiro, aliás, tinha até foto com ele, o que me deixava cheio do quinto pecado... E eu lá me importava com isso! Mandei o livro para o meu mestre. Dias depois tive uma das maiores alegrias da minha vida: uma carta de Drummond! Um envelope com meu nome, meu endereço subscrito, um cartão personalizado com sua letra miúda agradecendo-me o exemplar, a honra dos epígrafes, e o elogio reescrevendo um verso meu. A gesto de Drummond foi o melhor poema que não escrevi.

Amanhã ele faria 110 anos. Algumas comemorações se espalham por aí. No Rio haverá um recital em frente a estátua no calçadão em Copacabana. Aqui em Brasília, na livraria Sebinho, 406 Norte, poetas referenciarão o poeta maior. Estarei lá, Drummond, sempre grato por suas mãos dadas, "nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas."

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

dados pessoais


O que me dói é a saudade do menino
e o desencontro com o homem...

...


Sou o encontro de duas vogais

                          entre o menino que se foi
                      e aquele senhor que se aproxima.


(Versos do meu poema "Dados pessoais", do livro "Roteiro dos pássaros", 1980. Para a criança que fomos, que temos em casa, e que sempre seremos)