terça-feira, 26 de julho de 2011

metade

 foto Paul Russel

O que se vê em mim
não é o todo:
escondo gestos.
O que se sabe de mim
(ainda) não é tudo:
escondo datas
Metade que nem eu mesmo sei
mais corrói do que vive e cresce:
e silenciosamente é uma doença
(e não me esquece).

Convivo como caça e caçador
dentro de mim:
uma hora me acho
a outra não me aceita
e sou metade do rosto desenhada
a outra metade desfeita

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 7 de julho de 2011

tempos afora


Outro dia me alegrei com uma citação que o cineasta Petrus Cariry fez ao meu filme, Um cotidiano perdido no tempo numa entrevista ao site SobreCinema.


Hoje, nesta manhã seca de quinta em Brasília, banho-me de mais contentamento ao ler a crônica do escritor Nilto Maciel em seu blog Literatura Sem Fronteiras, sobre nossos encontros e desencontros tempos afora.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

outra disgestão


Há dias em que nosso estômago não é apenas um tubo, um depositário onde os alimentos são pré-digeridos e esterilizados, a fim de seguirem para o intestino, onde são absorvidos. Há dias em que ele é também pântano, onde digerimos os sapos que precisamos engolir, os dissabores que precisarão ser absoLvidos com o esquecimento, um pouco mais acima, pelo coração.

domingo, 12 de junho de 2011

presença

para Cris

Vivo
em ti
todos os momentos 
de mim.

(do livro "Poesia provisória" )

terça-feira, 24 de maio de 2011

eternal

 foto Emily Weir
  
Sempre. E sempre é sempre muito tempo.

para Cris

quarta-feira, 4 de maio de 2011

dúvida

foto Misha Gondim 

O homem é um bicho-homem
que não sabe se é um rato,

fosse o homem mesmo um rato
talvez não tivesse esse nome

posto que pode ser lobisomem
o homem não sabe o que é de fato.

Homem e rato – ambos têm fome
e comem tudo que está no mato,

quando comem, comem e somem
deixando sem fundo o chão e o prato;

mesmo não sendo um rato
o homem corre com medo da fome

como o rato corre do gato
que come o rato com medo da fome.

O homem (quem sabe...) é um passarinho
sem asas, sem bico e sem verão

que vive a vida atrás do ninho
angustiado no que chama solidão,

corre o mundo, sem parente, sem vizinho
montado no seu corpo feito alazão

carente de abraço, pão e vinho
perdido no céu, no mar e no sertão

sem saber se no incerto caminho
voa como pássaro ou avião.

(do livro “Roteiro dos pássaros – remixado”)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

página em branco


Faz-se sob encomenda pães, biscoitos, tortas... 
Poesia, não.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

o deserto de cada dia


Metrô lotado. Braços e corações pendurados no balanço subterrâneo. Todos ilhados em seus ipods. O vagão é um deserto pulsante.

terça-feira, 8 de março de 2011

folhame

 foto Brena Nielsen

 Renovar, sempre. Das coisas mais completas da vida, já temos o que nos feriu.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

prenúncio

foto Pamonkn

Faço
suas feições
no meu coração
seus contornos
na minha pele
seu endereço
no meu peito.

Nunca me devolva
a mim se me ganha.
Eu já me entreguei
e você não levou.
Aguardo-lhe com minha memória.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

dilacerado



Você não tem mais onde me machucar: meu coração é todo um hematoma.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

o carma dele é minha armadura



Há três semanas uma leitora deste blog, a poeta Neuzza Pinhero, de São Paulo, escreveu-me dizendo que tinha lido um poema em Natal, Rio Grande do Norte, intitulado "Carma", de autoria de Plinio Sanderson, conhecido no meio literário da capital potiguar. E ao ler o poema mais de uma vez, Neuzza viu que é o mesmo poema "Armadura", de minha autoria, escrito em 1979, publicado pela primeira vez em outubro de 1981, no jornal literário "O Catolé", de Fortaleza, Ceará, e republicado várias vezes em jornais, tablóides e revistas literárias cearenses e nacionais.

O tal poeta de Natal deve ter lido numa dessas publicações. Nos analógicos anos 80 não havia internet, o meio dos poetas divulgarem seus trabalhos eram os jornais literários e, quando podiam, os livros. Não haveria outra forma dele ter conhecido o meu poema, muito menos ter acesso aos manuscritos originais, guardados numa pasta, a sete chaves numa gaveta de um velho guarda-roupa, em Fortaleza, com todo zelo que um artista deve ter com sua cria.

O dito cujo poeta potiguar gostou muito do poema, e de maneira incorreta de apreciá-lo, passou a recitá-lo em eventos literários, dizendo ser dele, chegando a publicar no jornal Tribuna do Norte, da capital do seu estado.

Diante a surpresa e chateação fiz uma busca minuciosa na internet sobre o "Carma" dele que é minha "Armadura", e  comprovei o que a poeta Neuzza me disse. 

Ao conseguir um contato com Plinio Sanderson, através do site Facebook, suas argumentações não me convenceram: "nos anos 80 eu fazia parte da geração de poetas marginais e recitávamos poemas de vários poetas", "foi publicado pela tribuna do norte, jamais editei-o", "não lembro como me chegou o poema, faz muito tempo, não sabia do autor", "incorporei-o em recitais, nunca, jamais publiquei-o", "o jornal publicou não sei como, não fui eu que enviou". E contradizendo querendo me afagar: "a poesia é muito massa, desde já darei crédito".

O que achei na internet não foi nada disso, caro Plinio!

Nunca me importei que os meus poemas fossem publicados e lidos por quem gosta. A poesia é para ganhar o mundo, para ir de encontro às pessoas. Mas assumir a autoria de uma obra, mudar o título e divulgá-la como sua, quando nenhum pedaço de verso dele pode ser - eu aqui parafraseando Lupicínio Rodrigues, em busca de nervos de aço para engolir uma dessa! Não dá!

Tenho todas as provas da autoria do poema. Recortes de jornais, registro na Biblioteca Nacional e testemunho de pessoas.

Caso entregue a um advogado especialista em direitos autorais.

domingo, 5 de dezembro de 2010

bússola

 foto Alberto Monteiro

O que pressinto
me guia.
O que aparece
desconfio.

O que desejo
me norteia.
O que sugere
me previno.

O que choro
me revela.
O que sorrir
me resguardo.

O que escrevo
me entrega.
O que apago
me devolve.

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

conjuções

 
 foto Paul Sends

No passado deveria ficar o que nos desagradou
o que doeu, 
o que desmanchou. 

Com tudo
a memória vem
por toda via. 

Cabe no presente 
não por tanto
mas no futuro.

domingo, 14 de novembro de 2010

ocasião

 Douglas Felisman
 
Aproveito
o ensejo
para lhe dar um beijo.

A rima é pobre.
O gesto, nobre.

(do livro "Poesia provisória")

sábado, 13 de novembro de 2010

medida

 
 David Fleshman
 
Caberão no poema
 
quando
                    soltos, 
                                       os beijos

quando
                  largos,
                                         os abraços

quando
                       estradas,
                                                os passos
                                                               ?

(do livro "Poesia provisória")

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

neve

 foto Hague

 Na página em branco
o poema que se foi
à espera de outro que virá.

A página em branco
é ponte
entre
a
saudade
e
a
esperança.

(do livro "Poesia provisória")

sábado, 16 de outubro de 2010

dilacerado

 

Você não tem mais onde me machucar: meu coração é todo um hematoma.

sábado, 9 de outubro de 2010

sentido

 foto Dick Seltmandoski

  O que é um homem
sem um sonho?
O que é um homem
sem o passarinho?
O que é um homem
sem o horizonte?

assim
o homem é carcaça
ossos montados
no calor da tarde
inútil diante da paisagem.

(do livro "A distância e a paisagem")