segunda-feira, 14 de novembro de 2022

que trem é esse?


Não por acaso o cineasta e poeta Nirton Venancio realiza há alguns anos o filme Pessoal do Ceará – Lado A Lado B, registro da música cearense moderna, num trabalho solitário e de dedicação quase religiosa, num país onde impera a amnésia oficial. Sua ”matéria de memória” (alusão ao romance de Carlos Heitor Cony, faço eu) estende-se à poesia escrita, reunida no excelente Trem da memória, seu mais recente livro (Editora Radiadora, Fortaleza, 2022).

Esse trem não é da mesma conexão ferroviária do que apita, autoritário, na preocupação exclusivamente social da poesia de Solano Trindade, ou do singelo poema de Manuel Bandeira, enumerando o que seu olhar de passageiro elege da paisagem em movimento que se descortina da janela.
É uma poética transida de lembranças, como num caleidoscópio, ou melhor, num cinematógrafo, ou lanterna mágica, emendando na coladeira do tempo imagens esparsas que vão costurando uma narrativa testemunhada pelo poeta.
Opta pela simplicidade – a mesma encontrada nos pequenos vilarejos do Brasil - que nos remete aos poemas inaugurais dos primeiros dos nossos modernistas. Sem os artifícios gongóricos da Geração de 45, que reabriu as portas do Parnaso para suas medusas e apolos invadirem novamente a nossa literatura. No Nordeste não tem disso não!
“No quintal da grande casa
os verões passavam como nuvens
e sombreavam os gestos de menino
que se perdia na altura das formigas”
Teria escrito Graciliano Ramos em seu Infância (memórias, 1942), se mestre Graça descesse de seu agreste estado de espírito e se permitisse abrir o coração (e o verbo). Ou Manuel Bandeira, ainda pelas ladeiras do Recife.
“O nome do lugar está em mim
como topônimo neste poema
o logradouro onde me cabe...”
Associo à Itabira na parede de Drummond (“está em mim”); e o latifúndio (“que me cabe”) de João Cabral de Morte e vida Severina.
Esse trem poético de Nirton não para em nenhuma estação. Vai recolhendo da poesia brasileira e do cinema as referências que o seu inconsciente erudito e sensível sopra no seu ouvido. E retira de seu baú as joias da sua coroa particular e as expõe:
“focava sua luz neorrealista
no quintal em mim
para o dia que começava
no sertão sem fim”
Vejo logo a imagem do plano final de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber, com Othon Bastos levando pela mão Yoná Magalhães (Corisco e Rosa), correndo pelo sertão seco e "sem fim" com a trilha composta por Sérgio Ricardo.
Ou:
“Na tela de reboco,
esse recorte é o quadro que brilha mais
no meu cinema paradiso”
E vai declinando sua história – como um filme, autobiografia em forma de relato:
“Fortaleza seria logo além
da saudade do quintal de Ibiapaba
da lembrança da cancela na fazenda
da memória da casa amarela de oitão.”
E desagua nessa obra-prima de verso que reúne toda amorosa memória olfativa jamais descrita:
“o aroma de leite de rosas de minha mãe
(sempre gotas entre os seios e o coração)”.
Entre a herança das rimas dos cordéis do sertão e sob a sombra que a nossa antropofagia mastigou dos hai-kais orientais, ousa dizer que
“Cada verso me arreda.
Cada palavra me envereda”
Ao enveredarmos por essa viagem, como seu trem e serpente de chocalho sibilino e canto de sereia, dessas que surgem entre as pedras e os mandacarus das secas milenares e, hipnotizados pelos zóios da cobra verde de seus versos, nos ajoelhamos, gratos, com a consciência que essa poesia inoculada não tem cura. Nem nunca terá.
Nirton dedica as três últimas páginas de seu livro enumerando nomes e lugares – numa lista interminável, como os agradecimentos nos filmes brasileiros.
- Luiz Carlos Lacerda, cineasta e poeta (Rio de Janeiro)
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Em meados da década de 70, eu adolescente na capital cearense, vindo do interior, inocente, puro e besta, escrevendo escondido poemas e diários, vendo um filme atrás do outro, um dia saí fascinado de uma sessão no cine Diogo: “Mãos vazias”, primeiro longa de Luiz Carlos Lacerda. Aquele filme de narrativa irregular e ousado na sua postura e linguagem transgressora, deu uma sacudida em minha forma de ver cinema brasileiro. E tudo que eu queria era conhecer o diretor. E ser também cineasta.
Dando um salto no tempo, como numa elipse cinematográfica, porque a história é comprida, há mais de 30 anos proximidade e amizade se fizeram, mesmo com encontros esparsos.
Seu olhar sensível e afetuoso sobre Trem da memória é um prêmio na fortuna crítica do livro. Imensa gratidão pelo texto, caro amigo. Esse trem que o título indaga é o que leva a mesma estação dos que se querem bem. Abraço-te.

domingo, 13 de novembro de 2022

encontro de poetas


À esquerda - sempre - os poetas Alan Mendonça e Mailson Furtado, respectivamente, editor e posfaciador do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022).

encontros marcados


"Estive com Nirton Venancio muito menos vezes do que gostaria. Foram encontros culturalmente intensos, em cinemas e festivais do nordeste e de Brasília. Encontros marcados por um número grande, embora nunca unânime, de afinidades eletivas.

Vi praticamente o cineasta nascer, constatando em seus filmes a poética de imagens que hoje me surgem aos olhos em forma de literatura. Sempre generoso, Nirton fez chegar às minhas mãos seu livro de poesia memorialista 'Trem da Memória' (Editora Radiadora, 2022), percurso de sua pequena Cratéus, Ceará, aos grandes centros cosmopolitas, nos quais o cineasta/poeta se viu fisgado pelos '24 quadrinhos' das imagens em movimento.
Nirton confirma minha tese de que nossa geração foi uma das últimas que chegou às salas de exibição pelo afeto familiar e muito antes da fúria digital ser a porta de entrada às imagens para os miúdos.
'Trem da Memória' resume seus intuitos num verso citado de Narlan Matos que descortina o porvir e sintetiza a matéria da qual é feita o cinema e a literatura de Nirton, sempre indissociáveis: “um dia minha vida / foi ao cinematógrafo / e nunca mais voltou para casa.” A minha também, camarada."
- Ricardo Cota, jornalista, crítico de cinema (Rio de Janeiro).
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Trem da memória foi lançado ontem na XIV Bienal Internacional do Livro do Ceará, e encontra-se disponível no estande da Editora Radiadora, na Quadra Literária.

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

nos trilhos da Bienal



O trem chegou à estação João Felipe
e continua nos trilhos de minha vida.
Na capital
as bancas com suas notícias
a Cruzeiro com a miss na capa
os cowboys destemidos da EBAL.
Puxo os vagões da memória até quando?
O poema não acaba nunca.
O que escrevo são incompletudes:
há sempre quem lembro
e volto a sua casa
peço água e pergunto se sabe de mim
- o neto da costureira, o filho do bodegueiro
há sempre quem deslembro
e bate a minha porta
nada pede e pergunta se conheço quem foi
- o pai de lourim, o avô de fransquim.
Vocês não sabem
o peso e a pluma que são?
o chão e o pássaro que vão?
- Trecho do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022), que será lançado na XIV Bienal Internacional do Livro do Ceará.
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Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
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No lançamento:
Leitura de poemas: Alan Mendonça e Nirton Venancio
Apresentação musical: Charles Wellington, com a composição Se eu me chamasse Drummond, letra de um trecho do livro

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

poetas afins

 

Em maio de 2020, no começo da pandemia, quando passamos a viver necessariamente isolados, a poeta Noélia Ribeiro, pernambucana radicada em Brasília, criou a live A Fim de Poesia em sua página no Instagram.
Assim como muitas outras iniciativas de sobrevivência de corações e mentes, e, cada um em sua casa, ficarmos juntos na esperança de que dias melhores viriam, o programa reuniu, ao longo desses quase três anos, dezenas de poetas na afinidade com a mais íntima das manifestações literárias: a poesia. São autores de todo o país, muitos deles não tão conhecidos, mas que têm trabalhos grandiosos que precisam chegar às pessoas. Esse é um dos méritos das redes sociais, essa é a grande importância dessa live, que se caracteriza por apresentar a poesia dos brasis.
Em 1º de novembro – com este Brasilzão avermelhado de alegria - lerei poemas dos meus livros Poesia provisória (2019) e Trem da memória (2022), publicados pela Editora Radiadora, na luxuosa companhia de Rita Pinheiro (BA), Valmir Jordão (PE) e a regência afetuosa de Noélia, que lerá páginas do recém lançado Assim não vale (Arribaçã Editora, 2022).

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

o olhar de Zélia


"Conheci Nirton Venancio há poucos anos, na Livraria Lamarca, em Fortaleza. Foi um encontro acertado pelo editor Silas Falcão, conterrâneo do Nirton e nosso amigo em comum. Percebi estar diante de um sujeito muito afetuoso e muito decente. E foi a partir daí que conheci seu trabalho, como cineasta e como poeta.

Nirton Venancio é um poeta cuidadoso, criterioso, exigente com o que escreve. Por isso surpreende e emociona o leitor com a beleza e a originalidade de cada poema. Penso que Nirton enquanto escreve assume um compromisso consigo mesmo, com o leitor, com a própria poesia. Por isso acho estranho ele ter intitulado de 'Poesia provisória' um livro que, na opinião de muitos bons leitores, é irretocável.
Resultado semelhante ocorre no seu mais recente livro, 'Trem da memória'. Passei meses esperando esse trem, que enfim chegou, carregado de belíssimas memórias, que são do poeta, mas também são minhas e de quem lê esse livro-poema. Porque o leitor vai encontrar ali um pouco de si, da sua história, independentemente de onde ele esteja ou da geração em que se insira, porque a poesia de Nirton Venancio não se limita a essas convenções."
Zélia Sales, contista, no programa Pedagogia da Gestão, na TCM - TV Cabo Mossoró, apresentado pelo escritor Clauder Arcanjo, 15/10/2022
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Poesia provisória, 2019
capa: Fausto Nilo
prefácio: Carlos Emílio Correia Lima
Trem da memória, 2022
capa: Joseph M. W. Turner
prefácio: Valdi Ferreira Lima
posfácio: Mailson Furtado
Publicados pela Editora Radiadora
Coordenação editorial: Alan Mendonça
À venda pelo site www.radiadora.com.br e com o autor.

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

o que me deu asas

 


Não foi o deus do alto da matriz
quem deu asas a minha imaginação
nem foi o padre bomfim
(com sua mão branca de pelos escuros
que me obrigavam a beijar
quando ele apontava no começo da rua)
muito menos o padre irismar
(com seu rosto largo de pele vermelha
que me abrigava o olhar
quando desapontava no fim da rua)
não foram eles
a quem nunca deixei meus pecados
atravessarem as treliças do confessionário.
Pecados: pecados: pecados:
os seios
das tias de perto
que o menino via
refletidos no espelho do provador
as coxas
das cutruvias de longe
que o menino ouvia
espelhadas no reflexo dos homens
e mentia que a culpa-minha-máxima-culpa
era ter fabulado para a avó
e isso não se faz
seja a última vez
e tomem intermináveis
três pais-nossos deles
três ave-marias minhas
:
ato de contrição cabisbaixo
genuflexo
postulado
em frente aos gessos santificados
e seus olhinhos punitivos.
Não, não foram eles
seres comuns de batinas pretas
atravessadores de minha fé
não foram
foram as mãos dadas com drummond
as folhas finas da seleções
as curiosidades do capivarol
foram as fitas do cine poty
as canções da radiadora
a hora do brasil nas válvulas do abc
foram as notícias do tio da capital
as conversas na calçada alta
os trancosos da prima gorda
foi o olhar sem fim de tanto imaginar
que me deu asas sobre os telhados
os algodões
as carnaúbas
e me fez ver o mar.
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Trecho do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022) que será lido hoje no programa Sarau Brasil Atual, na Rádio Brasil Atual, São Paulo.
Apresentado pelo escritor e músico Sérgio Lima, produzido por Denise Sousa, estarei luxuosamente acompanhados da cantora e compositora paulista Regina Machado e do parceiro cantor e compositor pernambucano-cearense Charles Wellington.
Serão lidos também poemas do livro Poesia provisória, lançado em 2019 pela mesma editora.

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

hora de poesia


 No programa Poesia da Hora, apresentado por José Sóter, entrevistado por Vanderlei Costa.

TV Comunitária de Brasília DF
Link do programa na íntegra: https://fb.watch/fZpReC-I4V/

o eu da memória

 


Nirton Venancio tem toda uma coisa muito gráfica em sua poesia. Ele usa muito espaço em branco. Ele me lembra muito Ferreira Gullar, os irmãos Campos, toda essa questão da poesia moderna. Ele vai quebrando a gramática. Ele deixa a gente entrar no poema porque tem uma respiração, porque tem um silêncio. E esse movimento e a captura dessas emoções são construídas a partir de imagens. Eu consigo ver o que ele descreve. E ao mesmo tempo conversa, é algo que está aberto.
Essas memórias são memórias revisitadas, porque são as memórias de cada um. É o que poeta Rimbaud falou, 'Je est un autre', o eu é outra pessoa, é o eu poético, é o eu lírico, é o eu da enunciação. E é aí que se dá a magia da poesia, a magia da literatura, quando a gente sem ter vivido as mesmas coisas que a pessoa, a construção poética permite que se entre no poema.
- Ana Rossi, poeta, cronista, tradutora, professora do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, em seu programa Histórias Com Poemas, no Instagram.

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Trem da memória
Editora Radiadora, 2022
O livro foi lançado em 30 de julho em Fortaleza, na sede da Editora, Espaço Cultural da Kraft Atelier Coletivo, e em 14 de setembro no Beira Cultural do Bar Beirute, em Brasília.
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
Revisão: Galileu Viana
Disponível para a venda no site da editora e com o autor

terça-feira, 20 de setembro de 2022

a capa da memória


A poeta, cronista e tradutora Ana Rossi, do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, leu e comentou em seu programa “Histórias com poemas” trechos do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022).
Em um dos trechos ela fala sobre a capa, projeto gráfico de Léo de Oliveira e Alan Mendonça com a reprodução do quadro do impressionista inglês Joseph M. W. Turner, Rain, steam and speed - The great western railway, óleo sobre tela de 1844.
O programa na íntegra está em sua página no Instagram, @by_anarossi
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O livro foi lançado em 30 de julho em Fortaleza, na sede da Editora, Espaço Cultural Kraft, e em 14 deste mês no Beira Cultural do Bar Beirute, em Brasília.
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
Revisão: Galileu Viana
Disponível para a venda no site www.radiadora.com.br e com o autor

sábado, 17 de setembro de 2022

trechos da memória

 

A poeta, cronista e tradutora Ana Rossi, do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, leu e comentou em seu programa “Histórias com poemas” trechos do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022).

É gratificante quando poetas auscultam o coração dos poetas.
Acima, um trecho dos trechos escolhidos. O programa na íntegra está em sua página no Instagram, @by_anarossi
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O livro foi lançado em 30 de julho em Fortaleza, na sede da Editora, Espaço Cultural Kraft, e em 14 deste mês no Beira Cultural do Bar Beirute, em Brasília.
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
Revisão: Galileu Viana
Disponível para a venda no site www.radiadora.com.br e com o autor

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

lendo memórias


Trechos do meu livro Trem da memória (Editora Radiadora, 2022) serão lidos e comentados pela escritora Ana Rossi, em seu programa Histórias com poemas, hoje, às 20h, no Instagram, @by_anarossi.

Excelente poeta, atenta cronista, pesquisadora minuciosa, professora da UnB, do Instituto de Letras - Departamento de Línguas Estrangeiros e Tradução, Ana Rossi é uma das maiores tradutoras brasileiras. Miguel de Unamuno – poemas, (Editora UnB, 2022), que li recentemente, é uma preciosidade. A tradutora faz um trabalho impressionante de ourivesaria nos versos do poeta espanhol.
Ser lido por Ana Rossi é um prêmio.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

rumo ao cerrado

 


TREM DA MEMÓRIA, poesia
Editora Radiadora, 2022

Numa narrativa em que o poeta usa a primeira pessoa - o eu-poeta - e o terceiro pronome - o eu-menino - o livro, permeado de imagens, é um diálogo entre o adulto que é e a infância que foi no interior cearense, num recorte no tempo até a adolescência quando passa a morar em Fortaleza.
Dedicado à casa onde nasceu, o autor ambienta sua memória como uma volta ao útero de sua existência, ampliando sentidos e
sentimentos à infância de todos nós, seja no sertão, seja na cidade.
O trem, como outro personagem, é o meio que leva o menino ao futuro na mesma linha que traz o adulto às lembranças. Familiares, costumes, segredos, religião, fatos históricos, tudo se desenha nas páginas do livro, sob o olhar de criança que fotografa para o futuro.
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Coordenação editorial: Alan Mendonça
Concepção da capa: Léo de Oliveira e Alan Mendonça, pintura de Joseph Turner, 1844
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
Revisão: Galileu Viana
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lançamento:
apresentação do poeta Ismar Lemes de Abreu
leitura performática de Vanderlei Costa

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

refaz o meu olhar



A literatura cearense no meu mundo potiguar. A poesia de Nirton Venancio, brilhante autor cearense, chega às minhas mãos no dia da Independência do Brasil. Nada mais simbólico e significativo.

A alma de um poeta, seu olhar sensível, sua palavra cortante e seus sonhos, jamais poderão ser aprisionados.
Obrigado, Nirton, por sua amizade, generosidade e sensibilidade. Sua literatura me encanta e refaz o meu olhar sobre a vida.
- Carlos Régis, historiador (RN)
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Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio Correia Lima 

o voo suave

 

O voo suave de meu poema na leitura de Alan Mendonça, poeta e editor (CE).
Asas, do livro Poesia provisória, 2019, Editora Radiadora, musicado por Rubi (SP).

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

um dos melhores


 

na mão!


 

lançamento em Brasília - Bar Beirute


 

és o maior enlevo da minha vida


Do vasto cancioneiro brasileiro, minha mãe gostava muito de tantas músicas e sempre cantarolava nos afazeres domésticos, como uma trilha para cada gesto cotidiano. Mesmo com a voz baixa, docemente afinada, como estivesse cantando para ela mesma, ouvíamos na altura de nossos corações.

“Alguém me disse / que tu andas novamente / de novo caso / de novo amor / toda contente...”, entoava enquanto estendia uma toalha sobre a mesa, arrumava os pratos e talheres em posições simétricas. Parava, afastava-se um pouco, e via que estava tudo bonito. Continuava: “és o maior enlevo da minha vida, és o reflorir do meu amor”, emendando com outra canção, Quero beijar-te as mãos. Quando virava o rosto e me via escutando-a com os olhos, desabrochava um sorriso no meio da melodia e já começava uma outra, “encosta tua cabecinha no meu ombro e dorme”, que recebia especialmente para mim: ela trocava o “chora” original e conjugava o sono do filho.
Uma vez, enquanto bordava uma toalhinha de rosto, pedi-lhe: “cante aquela, mamãe, a das mãos pra beijar...”. “Ah, a do Alcides Gerardi... ”, atendia, identificando o cantor. E cantava abrindo outro arco de um sorriso.
Adolescente, quando comecei a colecionar vinis, fui a uma loja no centro de Fortaleza comprar os discos com essas canções de minha mãe. Encontrei o LP com o título duplo Me leva/Alguém me disse, respectivamente, o samba de José Garcia, Silas de Oliveira e Anísio Silva, e o bolero de Evaldo Gouveia e Jair Amorim, que abre o lado A e deu ao cantor, pelo estouro nas rádios e programas de auditório, o Disco de Ouro por ter vendido mais de dois milhões de cópias, em 1960.
Pedi ao rapaz, sempre solícito por trás do balcão, o LP de Alcides Gerardi, o que tinha Quero beijar-te as mãos. “Mas essa música não é com Alcides Gerardi, quem canta é o Anísio Silva”. E me mostrou o disco de 1959, Anísio Silva canta para você. Puxou o bolachão do invólucro de papel e apontou, "Aqui, ó", a faixa que abria o lado B, uma guarânia composta por Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal.
- Mas não tem uma gravação com Alcides Gerardi? – Perguntei, sem achar que minha mãe estivesse errada.
- Que eu saiba, não – falou o rapaz, indo até a um canto da prateleira. - Do Alcides Gerardi tem esse aqui, com um grande sucesso dele – disse colocando o disco no balcão e indicando a primeira faixa do lado A, Cabecinha no ombro.
Olhei demoradamente a capa.
- Acho que esse aí não é o cantor, não – comentou sobre foto da moça com a cabeça no ombro de um garboso rapaz, típico galã dos filmes da Atlântida. A imagem, que me pareceu mesmo ilustrativa para a faixa-título, não era o que me despertava atenção. Naqueles longos segundos pensei sobre quanto tempo minha mãe se enganara, mesmo ouvindo os informes na radiadora de Crateús, os programas nas válvulas do rádio ABC.
Levei os três discos e em casa disse para ela que Quero beijar-te as mãos não era com Alcides Gerardi, e sim com Anísio Silva. Mostrei-lhe o LP. Em silêncio olhou a capa, a contracapa... Puxou o vinil, balançou verticalmente a cabeça e disse com muita tranquilidade: “Bom... muito bom... adoro o Anísio Silva, mas prefiro com o Alcides Gerardi."
Por um tempo pesquisei se o cantor gaúcho fizera alguma gravação dessa música, já que ela afirmava com tanta convicção que gostava mais com ele. Nunca encontrei.
No meu novo livro, Trem da memória, em um trecho faço menção a algumas canções que meus pais ouviam. E mantive nos versos a música na voz de Alcides Gerardi, arriscando a reclamação e correção de algum atento historiador musical. Preferi a licença poética-afetiva do engano de minha mãe.
Foi lá
que meu pai lustrava o vulcabrás
enquanto esperava a volta do boêmio Nelson
que alguém me disse que minha mãe
cantava com Anísio Silva enquanto fazia o jantar
e eu como Alcides Gerardi beijava-lhe as mãos
enquanto neste poema estendo minha saudade.
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Trem da memória, poesia
Editora Radiadora, 2022
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
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O livro foi lançado em 30 de julho na sede da Editora no Espaço Cultural Kraft, em Fortaleza. Em Brasília será em 14 de setembro, 19h, no Bar Beirute da 109 Sul, dentro da programação Beira Cultural, com apresentação do poeta Ismar Lemes de Abreu e participação de Vanderlei Costa com leitura performática de trechos.
Também está à venda no site www.radiadora.com.br
Vídeo: OitoeMeio Filmes

domingo, 28 de agosto de 2022

o poema dentro do poema


Embarco no Trem da memória, de autoria do poeta e cineasta cearense, radicado em Brasília, Nirton Venancio. Deparo-me com o belo prefácio do poeta também cearense Valdi Ferreira Lima, e o pósfacio de outro poeta conterrâneo, Mailson Furtado, ganhador do prêmio Jabuti, e início minha prazerosa viagem nos poemas de Nirton, o menino de Crateús, que lá deixou um pedaço de seu coração e as marcas tácitas de seus passos nas ruas em descompasso.

Paro em várias estações, vejo a verve do autor que tem a alma assepsiada pelas águas do sagrado Poty. O mesmo rio “onde as águas barrentas e lavadeiras tristes" que Nirton cita em seus versos. Continuo minha viagem, percebo o estro do autor, criando belos versos, que são poemas dentro do poema. O menino pisa as areias mouras de Fortaleza. O seu eu lírico transborda versos impregnados de reminiscências.
O menino viu o mar! Cresceu, poetizou e com Rogaciano Leite Filho e outros escritores criou o Grupo Siriará de Literatura, em 1977. Hoje seus versos reverberam na Serra de Ibiapaba. Chego ao fim de minha viagem, não quero comparar o autor com Drumond, Fernando Pessoa, ou outros poetas. Eu li Nirton Venancio!!!
- Ismar Lemes de Abreu, poeta (Brasília – DF)
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Trem da memória, poesia
Editora Radiadora, 2022
Coordenação editorial: Alan Mendonça
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O livro foi lançado em 30 de julho na sede da Editora no Espaço Cultural Kraft, em Fortaleza, e está à venda com o autor e pelo site www.radiadora.com.br

sábado, 27 de agosto de 2022

uma epopeia pós-moderna


 

foi lá onde também sou


Foi lá
que o armênio Khachaturian
encontrou Cid Carvalho em Antenas e Rotativas
e o uirapuru entoava Sabre Dance depois do almoço.
Foi lá em Fortaleza onde também sou.
- Trecho do meu livro Trem da memória, lançado em 30 de julho na sede da Editora Radiadora no Espaço Cultural Kraft, Fortaleza.
Editora Radiadora, 2022
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
O livro está à venda com o autor e pelo site www.radiadora.com.br
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Vídeo: OitoeMeio Filmes
Melodia: trecho inicial de Sabre Dance from the Gayane Suite Nº 3, de Aram Khachaturian, 1942, regência Simon Rattle, Berliner Philharmoniker, 2013

há dias viajo nesse trem


 

quinta-feira, 25 de agosto de 2022

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

o sertão rumo ao mar


 

o trem que segue


Desembarca por cá o mais recente livro do querido Nirton Venancio, editado pela Radiadora, "Trem da memória".
Tive a alegria de assinar alguns dizeres como posfácio, aqui replico:
"[...]
‘Trem da memória’ inicia-se como um plano-sequência, em mais um filme dirigido por Nirton, e segue e segue e segue num só fôlego a conversar pelo desbravar de ruas e outras reentrâncias que pulsam da memória marcadas em concreto e abstrato do que o menino de Crateús guardou para si de tantos e tantas. Nessa toada, o menino vai e volta, ‘o menino sumiu’ e nesse sumiço se emborca ao avesso contando o que viu, o que sabe e o que queria saber, sem qualquer julgamento de certezas. Nele vê e vive o trem, e também o longe para onde ele, em sua linha de ferro, se esconde a levar tantas dúvidas do mundo. Tudo é possível. Tudo pode. Já foi e é, na cidade guardada que Nirton escreve por encontros e desencontros.
Mas não é uma cidade ou cidades de um eu só que meramente marasma saudades. Há uma partilha de encontros, que se tornarão inertes se sozinhos. Nirton abre veredas aos trilhos impostos e os enreda às suas carreiras à margem do Poty, às suas ruas a inaugurarem as manhãs e dos tantos sonhos a cavucarem o futuro. Nada é antigo. Lá mora seu presente de sempre (acredito que ainda hoje o carregue o bolso). E assim traduz um sertão próximo de tudo que pode ser, e o amplifica em verbo. E segue. E chega em Fortaleza.
[...]
‘Cada verso me arreda. / Cada palavra me envereda’, assim indo e vindo, Nirton em seu ‘Trem da memória’ brinca de se inventar mutuamente, e se debulha sem qualquer cobrança mútua a escrevem suas-nossas histórias. Afinal, a poesia traz esse exercício de encontro noutras plagas para enxergar retratos em nossa estante, cá um pedaço de todos nós neste trem que ainda segue."
- Mailson Furtado, poeta (Varjota - CE)
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Trem da memória, poesia
Editora Radiadora, 2022
Coordenação editorial: Alan Mendonça
Prefácio: Valdi Ferreira Lima
Posfácio: Mailson Furtado
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O livro foi lançado em 30 de julho na sede da Editora no Espaço Cultural Kraft, em Fortaleza, e está à venda com o autor e pelo site www.radiadora.com.br